Higienizar nosso corpo mental
Todos os dias nós tomamos banho, cuidamos de nossa higiene pessoal, limpamos a casa. As mulheres arrumam cabelos, pés e mãos, cuidam da pele, esmaltam as unhas, vestem-se da melhor forma possível e põem-se perfumadas. Os homens fazem a barba, penteiam os cabelos, trajam-se de acordo com as necessidades do trabalho e das circunstâncias, protegem-se se faz chuva ou se faz sol, se é frio ou calor. Os mais elegantes conferem os tons das vestimentas e dos adereços, usam roupas adequadas à estação, alimentam-se antes de sair de casa, munem-se do que irão necessitar durante a jornada. Os que têm automóvel zelam por ele, conferem combustível e temperatura. Enfim, todos nós repetimos o ritual dos cuidados diários, e pelo hábito já fazemos isso quase automaticamente.
Mas, na maioria dos casos, esquecemos de outros detalhes muito importantes, que seriam tão benéficos para o dia-a-dia da vida. E justamente por esse esquecimento acabamos sofrendo mais, e não sabemos por quê. Quantas vezes, após nos levantarmos, e no correr do dia, lembramo-nos de fazer também uma higiene de nosso corpo mental? Não, este vai de qualquer jeito! Poucas vezes lhe damos um trato. E saímos por aí espargindo impurezas e atraindo outras, porque não nos limpamos.
Quantas vezes olhamos pela janela, de manhã, e fazemos um agradecimento pela noite bem dormida, pelo novo dia que chega, pelo sol que nos saúda e nos beija a face, ou pela chuva que cai purificando o ar e irrigando a terra? Poucas. Se a noite foi de insônia, se o dia se apresenta cheio de afazeres e dificuldades pela frente, assim mesmo nos esquecemos de agradecer pelo dom da vida, por estarmos prontos para enfrentar a jornada e pela oportunidade da provação que os momentos mais amargos podem nos proporcionar.
Raramente nos lembramos de agradecer pela primeira refeição do dia e por aqueles que se levantaram mais cedo para proporcioná-la; dos que trabalharam anonimamente para que o alimento chegasse à nossa mesa. Importa pouco se ganharam o seu soldo por essa tarefa, mas eles a fizeram por nós, sem identificar cada um! E nós, de nossa vez, estamos saindo a campo para fazer o mesmo, mas nem agradecemos pela dádiva da saúde que temos, pela disposição e pelo conhecimento de que somos dotados para executar a nossa tarefa diária, pelo privilégio de poder servir.
Temos nos esquecido da gratidão por termos um trabalho, o nosso negócio. Se imaginamos não termos nada que agradecer, então é porque estamos realmente pobres, e esta será a pior das pobrezas... Saímos pela rua sem nos havermos lembrado de fazer uma higiene em nossa mente e purificar nossos pensamentos. Proferimos palavras e nos esquecemos de policiá-las para escutar se o que estamos dizendo é bom e edificante ou se é maléfico.
Não cuspimos no chão, porque isto não é de bom tom, mas nem sempre temos o mesmo zelo com certas palavras que lançamos boca afora e que contêm tanta impureza. Tomamos cuidado ao atravessar a rua, e com o sinal do trânsito, mas não vigiamos nossos pensamentos, às vezes carregados de densidade negativa, de mau humor e de revolta contra tudo e contra todos.
Saímos de casa sem fazer essa higiene e andamos por aí espalhando esses fluídos e atraindo outros iguais, porque a mente está receptiva para tal. Perfumamos nossa pele, mas nossa mente muitas vezes está com odores antigos, porque não cuidamos de fazer essa limpeza.
Dedicamos uma boa meia hora diária no banheiro para cuidar da higiene e dos adornos corporais, mas nenhum minuto para uma prece de agradecimento por todas as coisas, ou para saudar o dia e dar graças; para contemplar a beleza ao nosso redor e a que temos dentro de nós próprios; para observar que há o pulsar da vida mesmo nas coisas não muito agradáveis que se apresentam ante nossos olhos, e que, no entanto, podem nos servir para o exercício da meditação.
Se fizermos a higienização diária de nosso corpo interior passaremos a ver com olhos de reflexão e de compreensão muitas coisas que nos enchiam de inconformismo e indignação. Se olharmos as coisas aparentemente más com olhos bons, poderemos enxergar nelas algo interessante que passava despercebido. Porque em todas as coisas há o lado belo e sábio, mesmo as que nos pareçam tenebrosas à primeira vista. Porque está presente em tudo a manifestação da vida. E Deus as assiste e seus olhos as enxergam diferente...
Por que, então, não passarmos a olhar tudo com os mesmos olhos de Deus?! Lembremo-nos de que há muitos olhos, mais puros, olhando para as mesmas coisas. Que não sejam, pois, impuros os nossos.
Se primeiro ajeitamos as coisas dentro de nós, será mais fácil ajeitar as de fora. Orar pelos errantes e caídos e pelos que foram induzidos a cometer danos parece a parte mais difícil, porém temos feito orações piores por eles ao emitir sentimentos de ódio pelos seus atos. Não há grande mérito em louvar os puros e santificados. Amá-los não arranca de nós nenhum esforço e nem doação. Já doar uma prece e uma pitada de amor pelos chamados maus, eis aí a virtude!
Se começarmos a cultivar o hábito de higienizar nossa mente, ao menos um pouco por dia, como fazemos com nosso corpo físico, iremos adquirindo prática e nos sentindo refrescados e com um renovado bem-estar, que nos fará mais leves e mansos, e assim seremos capazes de mudar o mundo... Para melhor.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





