High Noon - Armando Mendes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de fevereiro de 1999
Armando Mendes 
Franco the Kid cansou do tiroteio e foi para casa. Doc Lopes saiu furado feito peneira do primeiro duelo. Ninguém conseguia enfrentar os pistoleiros. O jeito, para pôr ordem em Main Street - perdão, no mercado - foi chamar Baby Face Fraga, atirador treinado por Mad George Soros, o demolidor de bancos centrais (ninguém exibe mais marcas de moedas abatidas na coronha do 45 - perdão, do Pentium - do que Mad George).
Não é muito ortodoxa essa maneira de descrever uma troca de presidentes do Banco Central. Mas não parece deslocada neste caso, tal a sofreguidão em nos apresentarem Armínio Fraga como o gatilho mais rápido e certeiro do mercado.
Soa estranha, quase desesperada, essa linguagem. Espera-se de presidentes de bancos centrais que formulem políticas monetárias. A troca de tiros fica por conta dos operadores de mesas de câmbio e títulos. A eles, pode caber a imagem trigger happy.
Aos presidentes, não costuma caber. Ao contrário. São quase sempre senhores circunspectos, aparentados com esfinges. Falam pouquíssimo. Quando abrem a boca, de três em três meses, é para pronunciar frases lacônicas em sintaxe contorcida e jargão obscuro. Oráculos e gurus do mercado passarão os próximos três meses tentando interpretar o que quiseram dizer.
Alan Greenspan, por exemplo - o presidente do Federal Reserve (FED, o banco central americano). É um banqueiro central com senso de humor, que se permite até brincar com a própria obscuridade. Desde que me tornei um banqueiro central, aprendi a resmungar com grande incoerência, disse ele certa vez. Se eu soar indevidamente claro, vocês devem ter entendido mal o que eu disse.
É verdade. Greenspan fala em tijolaços de economês cerrado. Deve ser o único mortal hoje a merecer a distinção de ter profissionais dedicados a interpretar o sentido de tudo o que diz. Os greenspanologistas tentam identificar sinais ocultos sobre o futuro dos juros, da base monetária, da contração ou expansão do crédito, o futuro do dinheiro no mundo, enfim.
São os sucessores dos kremlinologistas. Lembram? Estes interpretavam sinais cifrados que permitiam avaliar as lutas pelo poder na cúpula da extinta União Soviética.
Mas isso faz muito tempo. Foi quase no século passado (resta, dessa tribo, a espécie dos vaticanistas, animais que hibernam durante os papados longos e acordam aos primeiros sinais de fraqueza de um pontífice).
Hoje, o quente é a greenspanologia. Textos complexos, argumentos sofisticados, personagens gente fina: banqueiros, especuladores de alto coturno. Os praticantes dessa arte certamente estranhariam o faroeste brasileiro e alguns de seus personagens (a dupla Wild Bill Itamar e Pancho Dutra, por exemplo, que não dá tiros, mas faz barulho).
A propósito: o título deste artigo é o mesmo de um western famoso de Fred Zinneman, com Gary Cooper e Katy Jurado. Na versão brasileira, ganhou o nome de Matar ou Morrer.
- ARMANDO MENDES é jornalista em Brasília


