Ao longo da história humana, a sociedade procurou registrar os seus feitos ou os de seus heróis. Muitas vezes o fez por uma questão de vaidade, outras tantas devido à consciência de experiências pessoais ou da comunidade, que seriam importantes para as gerações futuras e que não poderiam ser simplesmente esquecidas. Do Oriente Médio temos estelas que datam de quase 2.500 anos A.C., sendo uma das mais famosas a que tem o Código de Hamurabi (1792-1750 A.C., Museu do Louvre, Paris). Os egípcios tiveram seus hieróglifos decifrados por Champollion. Os Romanos registravam suas glórias nos Arcos de Triunfo, dos quais ainda encontramos diversos espalhados pela Europa. Em ‘‘O Nome da Rosa’’, Umberto Eco nos dá uma idéia das bibliotecas da Idade Média. O surgimento do livro e a invenção da imprensa tornaram mais fácil a guarda e a difusão da informação. Hoje, o computador favorece ainda mais este trabalho de valorizar a experiência passada.
Se os povos não tivessem aceito esses registros, analisado seu conteúdo, procurado entender seu significado e desenvolvimento e, por fim, pensado seu presente e seu futuro, baseando-se neste aprendizado, a nossa história seria muito diferente. Além de valorizarmos o conhecimento ainda temos um carinho todo especial por aqueles que viveram ou produziram. Estão aí as pirâmides do Egito preservando seus faraós, as relíquias cristãs lembrando seus santos, o Pantheon, em Paris, guardando os restos de muitos heróis franceses.
Recentemente, foi registrada a existência do Pato Mergulhão em florestas junto ao Rio Tibagi. Uma ave rara, em perigo de extinção, que poderá desaparecer de nossa região se as usinas hidrelétricas ali projetadas forem construídas. Se pararmos para pensar, o Pato Mergulhão é um gigante ganhador que ainda compete na olimpíada da natureza junto ao Rio Tibagi, na Chapada dos Veadeiros (Goiás), na Serra da Canastra (Minas Gerais) e em Missiones (Argentina). Seu quase desaparecimento se deve em grande parte à sua forma de vida muito própria. Alimenta-se de peixes que pega em corredeiras e se reproduz em tocos ocos protegidos nas florestas típicas de beira de rio (florestas ciliares). Que ironia! Justamente por conseguir sobreviver em corredeiras que assustam a maioria dos seres vivos, por ser um ganhador no jogo da vida, está ameaçado de extinção. Quanto homens, mesmo com seus barcos possantes, não morreram em situação semelhante?
Animais como estes são verdadeiras obras de arte forjadas pela Mãe Natureza ao longo de seus bilhões de anos de amamentação. Cinzelado em sua forma para o vôo e o mergulho, pincelado de cores sóbrias para o mimetismo, com sons musicais para o convívio da espécie e, escrito com DNAs onde registra toda a sua história de vencedor. Quem seria louco de destruí-lo? Ou não seria um louco quem destruísse as magníficas sinfonias de Beethoven, por exemplo? E quem queimasse a Monalisa de Da Vinci, quem bombardeasse a Catedral de Notre Dame? Quanto loucos já não puseram fogo em bibliotecas inteiras, eliminando de nossa história volumes de informações valiosíssimos?
Cada ser vivo contém, em seu DNA, volumes de informações que superam o que está escrito em muitos livros. Construções de usinas, estradas, parques, inegavelmente trazem benefícios para muitas pessoas. Não podemos negar o progresso, mas este deve estar em harmonia com a natureza, buscando uma melhor qualidade de vida para todos. O que fazer então? Cada pessoa deve formular o máximo de questões possíveis sobre estes problemas. Quais os prejuízos que podem trazer à natureza. À água? Ao ar? Ao solo? Às populações ribeirinhas? À cultura da região? Quais os benefícios para a população, para o comércio, indústria, turismo etc.? Regionais ou globais? Os benefícios ficarão nas mãos de alguns? Quais os interesses pessoais nestas construções? Quanto às hidrelétricas, o país, o estado, a região precisam de energia? Precisamos mesmo de tanta energia ou podemos economizar em casa minimizando esta necessidade? Poderíamos preencher páginas de perguntas e cada um tem a sua. O importante é não deixá-las sem respostas para o momento de se decidir. Se tomarmos as decisões certas, nossos filhos nos agradecerão. Ou, no futuro, poderão nem existir.

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