Posso imaginar a cena, a partir dos trechos publicados pela imprensa, transcrevendo as últimas palavras dos heróis do vôo 93, que caiu na Pennsylvania (EUA). Ao saber dos sequestros dos aviões pelos terroristas que destruíram as torres gêmeas do WTC, alguns homens decidiram pôr fim à situação em que outros inocentes seriam sacrificados, nem que para isso eles mesmos tivessem que morrer. Eles não foram suicidas: deram a vida para salvar outros, vítimas dos verdadeiros suicidas, os que deram a vida para matar inocentes.
Assim como eu, muitas pessoas passaram a admirar esses homens decididos – e também mulheres, podemos imaginar. Muitas vezes podemos ter nos perguntado o que nós próprios faríamos nessa situação. É o fascínio que os heróis e os atos heróicos exercem em todo ser humano. Eles parecem encarnar tudo aquilo que gostaríamos de ser: fortes, desprendidos, idealistas.
Qual a razão dessa admiração? Ao exercer um ato heróico – e muitas vezes não é preciso dar a vida por algum ideal; basta, por exemplo, doar um rim a um filho – uma pessoa está fazendo algo por amor. É a nítida égide do amor existente nessas ações o que nos atrai irresistivelmente. Intuímos que por trás de tudo, há algum tipo de amor.
Que nós fomos feitos para o amor é uma realidade inegável. Se tivéssemos uma tal oportunidade, quantos de nós não seríamos também heróis? Mas o que frequentemente acontece é que nos desculpamos pela nossa falta de heroicidade dizendo que não há ocasiões para heroísmos nas banalidades de nosso dia-a-dia. Em nosso raciocínio, pensamos que, se tivéssemos essa oportunidade, demonstraríamos ao mundo nossa capacidade heróica de doação. Como essas oportunidades não são assim tão comuns, acomodamo-nos a uma espécie de ‘‘mística do oxalᒒ mencionada pelo fundador do Opus Dei, o bem-aventurado Josemaría Escrivá (‘‘oxalá não tivesse família’’, ‘‘oxalá tivesse uma oportunidade’’, etc).
No entanto, posso citar inúmeros exemplos de heroísmo em nossos dias, em situações diversas. Quantas mulheres profissionais de nossos dias sacrificam a carreira pela criação dos filhos? Quantos estudantes trabalham o dia inteiro e depois, à noite, ainda vão para o curso noturno, em busca de um aprimoramento educacional? Quantos trabalhadores sobrevivem com um salário irrisório em tantos países?
Mas mesmo esses atos, que nos são mais próximos, muitas vezes não se aplicam à nossa realidade, e aí voltamos à ‘‘mística do oxalᒒ. Porém, creio que não deveríamos nos deixar enganar tão facilmente pelo nosso comodismo disfarçado. O fato é que a heroicidade está, na realidade, no cumprir nossos deveres, sejam eles quais forem, fielmente e com perfeição, todos os dias. Seremos heróis no cumprir o banal, o rotineiro, o simples, o comum.
Ninguém pode negar a heroicidade do cumprir as pequenas coisas com dedicação e perseverança. Exige força, desprendimento, idealismo, e certeza da existência da vida sobrenatural.
A atração exercida pelos grandes feitos deixa de ser um fascínio idealista: concretiza-se em meu dia-a-dia. Não terei um grande público espectador, não serei admirada, e muitas vezes ninguém vai saber quanto custou chegar ao fim daquele dia. Mas Deus verá o heroísmo colocado nos detalhes das tarefas rotineiras executadas com perfeição por amor a Ele. Esta é uma das grandes lições deixadas pelo bem-aventurado Escrivá, de quem, no dia 9 de janeiro, estaremos comemorando o centenário de nascimento, ocasião em que queremos fixar, com especial olhar carinhoso, o citado cumprimento heróico do dever cotidiano vivido com perfeição pelo fundador do Opus Dei.
SONIA MARIA LAZZARINI CYRINO é professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

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