A figura de Ana Néri paira acima de todas as homenagens que tem recebido ao longo dos anos, pela simples razão de que ela não é apenas um ícone da história da enfermagem no Brasil, mas também, e principalmente, uma presença marcante na história da sociedade brasileira, pelo amor ao seu povo e pelos exemplos legados a tantas gerações de compatriotas.
Se a Guerra do Paraguai teve seu lado triste pelas cenas brutais e abusos perpetrados contra as tropas inimigas, também foi injusta pela falta de reconhecimento das autoridades da época à ação de personagens, como a própria Ana Néri, cujos gestos de abnegação e heroicidade ajudaram a pintar os contornos daquela que terá sido provavelmente a única face bonita do sangrento confronto.
Pouca gente sabe, mas Ana Néri não foi apenas a voluntária que se tornaria modelo de coragem e vocação humanitária naquele conflito. Na realidade, entre seus muitos méritos, ela foi a precursora, na área de saúde em nosso país, de uma prática que hoje virou moda: a fitoterapia. Era com as ervas, urucuns, pimentões verdes, utilizados de forma tópica ou como beberagens, que ela tratava dos ferimentos e mitigava a dor dos soldados, procedimentos que lhe acarretariam problemas, em razão da ciumeira do médico-chefe do improvisado hospital de campanha. Hoje, mais do que tornar-se moda, a fitoterapia enche os consultórios de profissionais especializados, é tema de congressos e objeto de cursos em universidades.
Tendo entrado na história como nossa primeira enfermeira voluntária, numa época em que ainda não havia profissional de nível universitário nessa área, a destemida filha da cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, foi quem mais contribuiu para que os brasileiros se conscientizassem do quão importante é a enfermagem como profissão. Seja pelos atos magnânimos que praticou, seja por ter levado às últimas consequências um conceito que hoje - a exemplo da fitoterapia - é objeto de grande interesse dos dirigentes do setor: a humanização no atendimento. Tratar o paciente com dignidade, escutá-lo com calma, tornar-se seu amigo, embora nem todos se dêem conta disto, são parte do tratamento, que deve ser integral, com abrangência biopsicossocial, para ser eficaz.
A contribuição de Ana Néri para a enfermagem do Brasil e o exemplo que dá para os brasileiros foram importantes fontes de inspiração para o lançamento, pelo Conselho Federal de Enfermagem, da coleção de romances ''Anjos de Branco'', já no quarto volume. Um deles, de autoria do festejado escritor José Louzeiro, versando justamente sobre a nossa heroína, cuja vida, tão rica de grandes e belos exemplos, certamente voltará a ser abordada em outras obras da mesma coleção.
GILBERTO LINHARES é presidente do Conselho Federal de Enfermagem

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