HERANÇA REAL? - Corrupção e desigualdade estão no DNA do Brasil
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sábado, 07 de fevereiro de 2009
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Em que ano o Brasil nasceu? 1500, com a chegada de Pedro Álvares Cabral e suas 22 caravelas, correto? Para o jornalista Laurentino Gomes, o código genético do Brasil surgiu em 1808, quando Dom João VI fugiu de Napoleão Bonaparte e transformou o Rio de Janeiro em sede do Império.
Autor de ''1808'', ele afirma que nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas, decisivas e aceleradas quanto os 13 anos em que a corte portuguesa permaneceu no Rio de Janeiro. ''Num espaço de apenas uma década e meia, o Brasil deixou de ser uma colônia proibida, atrasada e ignorante para se tornar um país independente'', diz.
Se o Brasil tivesse sido colonizado por espanhóis ou ingleses, a história seria diferente?
É bom lembrar que o Haiti foi colonizado pelos franceses e hoje é o país mais pobre do mundo. Os belgas colonizaram o Congo, antigo Zaire, hoje flagelado por uma infindável guerra civil. Ingleses e holandeses criaram a África do Sul, que resultou no pior regime de segregação racial da história contemporânea. No Brasil, os portugueses foram cruéis na exploração da mão-de-obra escrava e no extermínio sistemático da população indígena. Durante mais de três séculos mantiveram a colônia brasileira isolada e ignorante, sem livros, imprensa, ensino superior e direito de reunião. Nada disso, no entanto, indica que a situação poderia ter sido melhor caso os colonizadores fossem outros. Todo país tem erros de que se arrepender no passado. Mas eles não podem justificar os erros do presente.
Qual balanço o senhor faz da colonização portuguesa no Brasil?
É um erro acreditar que a colonização portuguesa fez do Brasil um país pior do que poderia ter sido. Infelizmente, nós brasileiros temos tendência a culpar o passado pelos erros do presente. É como se a corrupção, a desigualdade social, o nepotismo e a ineficiência fossem uma herança portuguesa com a qual os brasileiros de hoje estivessem condenados a conviver sem remédio para sempre. A presença portuguesa no Brasil tem méritos que precisam ser reconhecidos. Um exemplo é a grande transformação ocorrida nos 13 anos da presença da corte de D. João no Rio de Janeiro, entre 1808 e 1821.
Para o senhor, qual o atual retrato do Brasil?
Trata-se de um país integrado, de fronteiras bem definidas e habitantes que se identificam como brasileiros. Até 1807, era apenas uma grande fazenda extrativista de Portugal, sem nenhuma noção de identidade nacional.
Em relação ao comportamento, o senhor acredita que muitos traços vêm do período colonial?
O Brasil dos três primeiros séculos da colonização portuguesa não teve ensino superior, livros ou jornais cuja publicação fosse autorizada em seu território. Era, portanto, um cenário bem diferente dos nossos vizinhos da América espanhola, em que a imprensa, a indústria gráfica e o ensino superior já floresciam nos séculos 16 e 17. No Brasil, a ignorância e o isolamento eram resultados de uma política deliberada do governo português, com o objetivo de manter a colônia longe dos olhos e da cobiça dos estrangeiros, como uma jóia extrativista e sem vontade própria. Quando a corte chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, só 1% dos três milhões de brasileiros da época eram alfabetizados. São heranças mal resolvidas, que ainda hoje desafiam os brasileiros empenhados na construção de um futuro melhor.
Nossos líderes atuais têm um ''quê'' de Dom João?
Paul Johnson, historiador e jornalista britânico diz no livro ''A History of the American People'' (Uma História do Povo Americano) que os países, tanto quanto os seres vivos na natureza, têm um DNA. A forma como um país é criado define todo o seu futuro, diz ele. O que procuro demonstrar no meu livro é que o código genético do Brasil está em 1808. Naquela época, já havia muita corrupção, muita troca de favores e muita promiscuidade entre os negócios públicos e privados. Mas ali também estava nascendo o país grande, integrado, relativamente tolerante nas relações políticas, religiosas e raciais que temos hoje. Portanto, o Brasil de 200 anos atrás ajuda a explicar muito do que acontece hoje em Brasília. Para o bem e para o mal, somos herdeiros diretos de 1808. É como se fosse o nosso código genético. Por isso, é um bom sinal que os brasileiros estejam mais interessados em ler e estudar história.


