HERANÇA MALDITA - Alcoolismo passa de mãe para filha
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Paula Costa Bonini<br> Reportagem Local 
As mães são modelo de comportamento das filhas
Beber escondido é uma característica das alcoolistas
O alcoolismo é transmitido também entre as gerações femininas de uma mesma família. Esta foi uma das conclusões da pesquisa de doutorado, defendida na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), da psicóloga Ana Beatriz Pedriali Guimarães. O trabalho, que deu origem ao livro ''Um Passado que Vive'', também constatou que a mulher alcoolista é a preferida do pai e normalmente tem uma relação conturbada com a mãe. Segundo Ana Beatriz, as filhas aprendem a usar o álcool de forma inadequada com as próprias mães alcoolistas. ''Elas utilizam a substância para lidar com os problemas'', afirma.
Em entrevista à FOLHA, a psicóloga, graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) e mestre pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ressalta que as mulheres desenvolvem a doença mais rapidamente do que os homens e que apresentam mais complicações físicas decorrentes do álcool. Ana Beatriz discute ainda a influência da genética no desenvolvimento da doença e alerta que os fatores sociais também representam risco e podem levar ao alcoolismo.
Em sua pesquisa a senhora concluiu que o alcoolismo é uma doença transmitida também entre as gerações femininas de uma mesma família. O que explica esse padrão?
O foco do estudo foi a transmissão de padrões de comportamento ao longo das gerações de uma família. Constatei que as mães das mulheres alcoolistas também eram alcoolistas e que as filhas aprenderam com suas mães a fazer uso do álcool de maneira inadequada, utilizando a substância para lidar com os problemas diários de suas vidas. As mães são modelo de comportamento das filhas e é com elas que aprendem a se comportar inclusive com relação ao álcool.
A transmissão da doença entre os homens de uma mesma família é menor do que entre as mulheres? Por quê?
A diferença entre homens e mulheres é que as mulheres desenvolvem a doença mais rapidamente e possuem mais complicações físicas decorrentes do alcoolismo. Mas, em termos de aprendizado do uso do álcool na família, não há diferença entre homens e mulheres. O que se sabe é que nas famílias de homens alcoolistas os pais também são alcoolistas e não as mães.
Pode-se afirmar que o alcoolismo tem um componente genético importante? Uma pessoa que nunca teve casos na família pode desenvolver o problema?
Sabe-se que a genética possui influência no desenvolvimento do alcoolismo. Filhos de alcoolistas possuem até quatro vezes mais chances de desenvolver a doença ao longo da vida do que filhos de não alcoolistas. No entanto, a genética não define o alcoolismo, apenas coloca o indivíduo em maior risco. Sendo assim, uma pessoa que não possua alcoolistas na família pode desenvolver a doença e quem possui a genética pode nunca desenvolvê-la. A genética juntamente com um ambiente de risco é que faz com que a doença se desenvolva.
Além da genética, quais são os outros fatores que podem levar uma mulher a abusar do álcool?
As mulheres que estudei possuíam um ambiente familiar muito violento. E a violência é vivida, principalmente, entre mãe e filha. Outro fator encontrado foi a relação de superproteção destas mulheres com seus pais e de muito conflito com suas mães. Essa relação, conhecida como triangulação familiar, é muito ruim pois coloca o casal (pai e mãe) numa relação de disputa e a filha acaba tomando o lugar da mãe, sendo a preferida do pai. Consequentemente, a mãe cria uma relação de ciúmes e se estabelece uma relação de violência com essa filha. Tudo isso contribui para o alcoolismo feminino já que as mulheres costumam beber para fugir de eventos traumáticos. Esses são fatores familiares, mas existem outros fatores sociais e individuais que colocam uma pessoa em risco para o desenvolvimento do alcoolismo.
Há diferenças entre o homem e a mulher alcoolista?
Sim. As mulheres desenvolvem a doença mais rapidamente que os homens. Também existe diferença na metabolização do álcool: como as mulheres possuem mais gordura e menos quantidade de água no corpo, elas metabolizam o álcool mais lentamente, embriagando-se mais rapidamente e com doses menores da substância. Outra diferença é que as mulheres relatam o início do uso abusivo a partir de um evento traumático na vida enquanto os homens começam um uso mais recreativo, passando ao abuso. As mulheres tendem a se esconder mais. Beber escondido é uma característica das alcoolistas.
Qual o perfil da mulher alcoolista?
A mulher alcoolista normalmente vem de uma família muito unida, em que não existe privacidade entre os membros. São pessoas que não conseguem estabelecer uma vida adulta saudável, baseada nas suas escolhas, pois querem se manter leais aos princípios da família. Elas não estabelecem casamentos saudáveis e, geralmente, repetem o mesmo padrão de casamento violento. Diante dos resultados do estudo, penso que os centros de tratamento devem estar atentos a essas mulheres a fim de quebrar padrões disfuncionais e prevenir o alcoolismo nas futuras gerações.
Serviço
■ Um passado que vive
✔ Ana Beatriz Pedriali Guimarães
✔ Editora Rosa Nigrea
Pode ser adquirido por meio do site www.biaguimaraes.com.br


