Disposto a uma surpreendente série de viagens ao Interior para inaugurar obras (mais de 14 mil nos oito anos incompletos e não inauguradas), Lerner inova o comportamento político. Quando se anuncia o fim do seu ciclo, e até de forma bem melancólica, com as derrotas eleitorais, ele parte para a apoteose de mostrar a todos o quão frutuosa foi sua passagem pelo governo. Há quem diga que parece estar dando uma lição pedagógica no eleitor como se o obrigasse, por essa via, a uma espécie de purgação de culpas: como deixei de votar em alguém que fez tanto?
Quem deve estar agradecendo por essa subversão de cronograma são todos os seus adversários e, especialmente, os que se habilitaram ao segundo turno e que curiosamente recebem apoios, partilhados, do seu primeiríssimo escalão. Afinal a tradição brasileira sempre foi a de juntar a euforia das inaugurações ao fulgor das carreatas, comícios e foguetórios. E as obras que o governo vai inaugurar têm raízes fortíssimas nas comunidades beneficiadas e dão o tom de uma gestão empreendedora, ainda que frágil nas decisões políticas e mais ainda nas salvaguardas que deveriam ter sido adotadas contra a corrupção.
O FATO E O MITO O Paraná de hoje é muito mais dinâmico e avançado do que aquele dos tempos em que Alvaro Dias e Roberto Requião governaram. Por sinal que na discussão da paternidade das obras não houve referência ao fato de que muitas delas tiveram seu acabamento e, mais do que isso, o pagamento maior no governo Lerner. A BR-376 por exemplo. Alvaro iniciou e abandonou por falta de recursos (alguns aterros e cortes foram prejudicados seriamente), Requião retomou com empenho máximo e construiu a porção maior e Lerner a concluiu e, ainda por cima, pagou.
O Paraná, pós-Lerner, é menos dependente de São Paulo, embora tivéssemos no período perdido o maior complexo financeiro, o Bamerindus, e ainda o banco estadual, Banestado, que deixou um ''rombo'' de R$ 5 bilhões, resultado do acúmulo de festas que todos os governos fizeram, inclusive o atual, marcado pelas picaretagens da Leasing e da Corretora. A industrialização de ponta, como a das montadoras, é responsável em parte por essa ruptura, ainda que não tivesse dado os retornos ''sociais'' anunciados em emprego, o que já era uma fantasia, por ser inadmissível que esse setor não adotasse, por método, uma política de alta tecnologia, robótica inclusive, e consequentemente poupadora de mão de obra. Só para ilustrar: as quatro montadoras, aí figurando a New Holland, de máquinas agrícolas, mais a Volvo, a Audi-Volks e a Renault, davam pouco mais de 7 mil empregos diretos quando se anunciava quatro vezes mais.
OUTRA ESCALA Mudou a escala de nossa economia e até o setor com a vocação tradicional como o agroindustrial mostrou vitalidade incomum, sendo o grande fator das exportações e na política de emprego. Nesse caso desequilibrou porque as montadoras ao mesmo tempo que exportam (e já aparecem com destaque no ranking) elas importam e ainda mais por causa de uma das vulnerabilidades do sistema pela baixa taxa de nacionalização dos produtos, posto que seja estimulada pela virada cambial. Negar a transformação havida é burrice até porque, em que pese a proclamada compulsão de Lerner pelo marketing, em relação ao conjunto da obra, tanto Alvaro como Requião abusaram muito mais das ações propagandísticas, inclusive com acesso às redes de televisão em que detinham espaços permanentes.
OS R$ 500 MILHÕES É verdade que no primeiro quadriênio Lerner limpou a caixa, gastando R$ 500 milhões em propaganda, realmente uma bestialidade. Gastava muito mais do que São Paulo como se comprovou. Ocorre que o não monitoramento desses dispêndios, pois um dos condutos era o das agências de propaganda, empregadas como fontes de pagamentos a prestadores de serviço (Faxinal do Céu, Jogos da Natureza etc), é que gerou a anomalia. Outro mal foi o da tentativa de leiloar a Copel quando a maioria esmagadora do povo (85%) a condenava.

mockup