Um estudo do Departamento de Psicologia e Psiquiatria da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, mostrou que 50% dos criminosos apresentam alterações genéticas em sua função cerebral que podem levar à prática de delitos. Outros 35% são influenciados por fatores ambientais, como violência na infância, e apenas 15% dos casos estão ligados ao histórico familiar do indivíduo.

Para o neurocientista carioca Jorge Moll, existe uma ligação entre a genética e a prática de crimes, mas não é um fator isolado. Em entrevista à FOLHA, ele afirma ser possível perceber mudanças no comportamento logo na infância, e que o melhor tratamento passa por uma combinação de fatores legais e sociais acerca do indivíduo.

Qual a ligação existente entre o fator genético e a prática de crimes?
Existe uma ligação já comprovada. Contudo, esta ''herança genética'' não é específica para o crime, é multifatorial. Por exemplo: a combinação de baixa empatia, alta agressividade, baixa tolerância à frustração, hiper-sensibilidade à recompensa, entre outros, levará a uma maior probabilidade de comportamento anti-social. Contudo, é a interação dessas características com o ambiente o que melhor explica a vulnerabilidade de uma pessoa a se tornar criminosa. Por interação entende-se que o efeito da combinação é maior que a soma das partes: genética mais ambiente.

É possível perceber um comportamento diferenciado logo na infância?
O chamado transtorno da conduta na infância é um indicativo de comportamento anti-social na idade adulta. Mas é importante lembrar que só aproximadamente 50% das crianças com transtorno de conduta irão preencher critérios diagnósticos de comportamento anti-social na idade adulta.

Existe uma idade a partir da qual podemos considerar o quadro ''irreversível''?
Funciona como outras capacidades mentais. Quanto mais tarde, menor a chance de reversão. É importante lembrar que não é o crime cometido que caracteriza o indivíduo, mas a estrutura da sua personalidade.

Qual tipo de tratamento pode ser aplicado?
Depende da patologia e do tipo de comportamento anti-social manifestado pelo indivíduo. Não há um tratamento específico, mas múltiplas estratégias que podem ser adotadas, tanto do ponto de vista individual quanto social e legal.

Cite alguns exemplos...
Em casos de psicopatia grave, associada a falta de empatia e culpa, frieza emocional, medidas de ressocialização e de psicoterapia têm baixa eficácia. Torna-se muito mais importante monitorar esses indivíduos de perto, já que sua reincidência criminal é extremamente alta. Um esquema de trabalho com remuneração diária (ao invés de mensal) é muito mais eficaz.

As pessoas com esse perfil têm sentimento de culpa após cometer um crime?
No caso dos indivíduos com altos graus de psicopatia (no sentido estrito do termo, e não de doença mental de forma genérica), tipicamente os sentimentos de culpa e empatia estão ausentes. Em pessoas normais, tais sentimentos servem como freios, atuando na maior parte das vezes antes do delito ser cometido, ainda no ''teatro mental''.

Psicopatas e pedófilos também podem ter essa predisposição genética?
O estudo da genética na psicopatia está apenas começando. Sabe-se que é multi-fatorial, mas não se sabe exatamente quais os genes. Sabe-se também que a herança genética é forte, pois gêmeos idênticos (monozigóticos) compatilham muito mais a chance de serem (ou não) psicopatas do que gêmeos não-idênticos (dizigóticos). A pedofilia é outra história. Alguns pedófilos podem também preencher critérios para psicopatia, outros não. O fundamento genético é ainda mais obscuro nestes casos.

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