Hemingway e o caminho das pedras - Paulo Briguet
Paulo Briguet
Houve um tempo em que todo mundo queria escrever como Ernest Hemingway: frases curtas, ordem direta, sem adjetivos. Era um escritor que mostrava o mundo sem firulas. Praticava uma literatura livre de pompas e frescuras.
O excesso - parecia dizer Hemingway - já era trazido pela realidade das coisas: guerra, violência, morte, amor desfeito, derrota, natureza. Em suas histórias, toda crueza do mundo era transformada em pedregulhos verbais. O conjunto, apesar do fundamento mineral, produzia vida. Daí, a beleza dos livros de Papá (ele não gostava que estranhos o chamassem pelo apelido).
Hemingway foi jornalista no início da carreira. Ele daria risada diante dos que pregam o distanciamento entre o repórter e o fato. Quando estava na editoria de polícia, diz a lenda, Hemingway chegou a pegar carona (escondido) no carro funerário, no qual transportavam a vítima. As frases eram secas como pedras do deserto, mas o autor mergulhava na vida. Mesmo perseguindo a palavra exata, Hemingway jamais seria adepto do enclausuramento de Flaubert.
O texto de Hemingway permanece o sonho de qualquer editor moderno. Mas o seu envolvimento com as coisas talvez fosse, hoje em dia, um pesadelo para a mídia.
Criticado por ostentar um lado viril que alguns julgam ultrapassado e artificial, quando não reacionário, Hemingway era um homem de alto risco. Sobreviveu a desastres aéreos, porres, fome (em Paris...), guerras, safáris e desilusões amorosas. Fugindo do estereótipo habitual do homem de letras, criou outro clichê. O Sol que se levantava no mundo de Hemingaway aquecia os bravos, mas também os aniquilava com limitações dolorosas e barreiras intransponíveis. Um tourada poderia acabar com todo poder de um homem sobre a vida e o amor. O sangue quente e a dureza do Sol talvez explicassem por que ele gostava de escrever em pé.
Hemingway sobreviveu a homens, mulheres, touros, acidentes e guerras. Só não conseguiu fugir do Sol de seus próprios fantasmas. Atormentado pela tragédia que o abismo de sua mente criou, Hemingway passou seus últimos dias, no refúgio de Cuba, à cata de inimigos imaginários, microfones ocultos e ameaças inexistentes. Perseguido - dessa vez - por ninguém, apelou a um tiro na cabeça para conseguir tranquilidade. Foi a grande derrota de Ernest Hemingway - para ele mesmo. Mas, à semelhança de um toureiro, o escritor viveu inúmeras tardes de glória antes da arena final.
Não é à toa que o grande crítico literário Edmund Wilson - que foi amigo e depois desafeto do escritor - apontava as vitórias morais como o grande tema da literatura de Hemingway. O escritor invocava forças da natureza e os grandes combates físicos, mas criava o verdadeiro poder de sua literatura por meio de uma ética superior e individual. A redenção da moralidade, gravada na obra de arte, é um caminho sincero para todos os derrotados do mundo. Hemingway enxergava a vitória por trás da derrota. Não é pouco para um escritor nascido e criado na terra que valoriza acima de tudo os winners.
O centenário de Hemingway foi comemorado ontem. Até prepararam um imenso bolo em sua memória. Mas, com o perdão da turma politicamente correta, os sinos dobram por Hemingway - e é possível lembrá-lo de modo inteligente. Há uma mensagem profunda do autor - que Edmund Wilson captou de maneira sagaz. Sem aceitá-la, ninguém beberá a essência da literatura de Hemingway.
Haverá sempre um drama para os pretensos imitadores do escritor: quando se tenta reproduzir o estilo dos pedregulhos, ignorando o espírito ético do mestre, o resultado é um monte de cascalho. Tudo vira um amontoado de frases telegráficas e vazias, dentro da objetividade raquítica. Esse foi um grande pecado que a imprensa cometeu (e comete) em nome de uma suposta fidelidade a Hemingway.
Sem espírito ético e envolvimento humanista - duas qualidades tão fora de moda hoje em dia - os falsos filhotes de Hemingway jamais avançarão além do vocabulário de 200 palavras, da falta de estilo e da esqualidez moral. Aos que insistem em permanecer confinados ao reino dos minérios, Hemingway jamais permitiria ser chamado de Papá.
PAULO BRIGUET é jornalista da Folha, em Londrina





