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Uma nação e uma comunidade de pessoas unidas pelo mesmo destino e por um só caráter (Otto Bauer)
J. Roberto Whitaker Penteado
Nos tempos relativamente recentes das ditaduras no Cone Sul, os ‘‘terroristas’’ que se opunham aos regimes opressores descobriram uma maneira particularmente eficaz de atrair as atenções do mundo para o que se passava em países como o Brasil, Argentina e Uruguai - que normalmente comparecem pouco às páginas dos principais jornais do mundo. Refiro-me aos sequestros políticos, que se iniciaram - se não me engano - aqui mesmo no Rio de Janeiro, com o rapto dos embaixadores dos Estados Unidos e da Suíça, sendo que um deles, como se sabe, virou filme de aventuras.
O centro dessas atividades, depois, mudou para a Argentina - onde foi maior e mais sanguinária a repressão dos militares - e adquiriu um novo aspecto: de sabotagem econômica. Tupamaros e outros grupos de oposição descobriram uma forma particularmente insidiosa de, ao mesmo tempo, chamar atenção, obter dinheiro para financiar suas atividades e atingir o governo ‘‘inimigo’ na parte que mais doía: o bolso. Passaram, então, a sequestrar empresários e executivos, em especial de empresas multinacionais. Ainda que não tenham ganho a guerra - tarefa de que se desincumbiriam com êxito a ministra Margareth Thatcher e as tropas britânicas - os sequestradores lograram seus objetivos de intimidação, fazendo que os executivos expatriados se sentissem inseguros e as matrizes das multinacionais direcionassem seus interesse para outras partes. O Brasil, mesmo, chegou a beneficiar-se da situação, pois vieram para cá investimentos anteriormente destinados ao país vizinho.
Tais reflexões ocorrem-me - como terá percebido o leitor - diante da barbaridade do que está, novamente, acontecendo no Rio de Janeiro.
Faz muito poucos dias, compareci, aqui, a um encontro promovido pela revista Exame - com a presença do governador Marcelo Alencar - para tratar da revitalização econômica do estado, que se vem tornando uma realidade cada vez mais concreta. Mas, infelizmente, em meio a muitas reflexões otimistas, no único momento em que se tratou do tema crime organizado e segurança dos cidadãos, nosso governador tinha poucas respostas e alegava - não sem certa razão - que o problema requeria a atuação combinada das autoridades federais e internacionais.
Se a atuação dos bandidos estabelecidos no Rio de Janeiro fosse de cunho político/econômico, certamente estaria atingindo seus objetivos. Há empresários fluminenses - e suas famílias - apavorados com os perigos a que sujeitam pela simples razão de terem escolhido a nossa cidade e nosso estado como local de moradia e centro dos seus negócios. No meu trabalho diário, longe das manchetes dos jornais, recebi um telefonema de uma pessoa que desejava informações para transferir a matrícula de um filho, na faculdade, para São Paulo, pois mudava-se para lá, por medo.
Embora se possa compreender o sentimento de impotência do governador - e as suas explicações racionais para não conseguir resolver sozinho o problema da criminalidade, dirigida aos pontos mais vitais da sociedade - é evidente que, se algo não for feito, com muita urgência, cairá por terra todo o enorme esforço que a comunidade empresarial carioca vem fazendo para dar condições de sobrevivência econômica e habitabilidade à cidade.
E essa é uma tarefa exclusiva - entre todas a demais - que compete ao governo. Os analistas políticos observaram que a principal razão histórica pela qual as sociedades se organizaram na forma atual, escolhendo um poder central, foi para garantir a paz e a segurança coletivas. É esse princípio básico de estabilidade social que os cidadãos de todo o Brasil têm o direito de exigir - do prefeito, do governador, do presidente - para esta cidade que ainda é, nas mentes das pessoas e nas manchetes internacionais, sinônimo do próprio país.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Rio de Janeiro.

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