Hélio Doyle
Hélio Doyle
Conversa
em Havana
O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Roberto Robaina, vem ao Brasil em missão oficial e recebe, na residência de seu embaixador, um dirigente da oposição não-institucional ao governo brasileiro. Como o líder dos sem-terra João Pedro Stédile, por exemplo. Conversam sobre as violações aos direitos humanos que aqui se praticam e Stédile manifesta intenção de ver o presidente Fernando Henrique Cardoso longe do Palácio do Planalto o mais cedo possível. Como a reforma agrária, na lei ou na marra.
Nada disso aconteceu, claro. Se tivesse acontecido, os jornais noticiariam com alarde e choveriam críticas, principalmente de parlamentares, ao nada diplomático chanceler cubano. Seria repudiada, com razão, a ingerência de Cuba em assuntos internos do Brasil. Imaginem: um marxista de carteirinha, ainda por cima ministro de um país comunista, vindo a Brasília e se encontrando com um adversário radical do governo brasileiro.
Não aconteceu em Brasília, mas aconteceu em Havana. Com sinais trocados, naturalmente. O chanceler brasileiro foi a Cuba em missão oficial e recebeu, na embaixada, o líder de um grupo que defende os direitos humanos, na verdade um grupo de oposição ao governo cubano. Elizardo Sánchez, o interlocutor do chanceler, é um dissidente, pois assim são chamados, fora de Cuba, os que fazem oposição a Fidel Castro.
Os dissidentes são entrevistados, com frequência, por correspondentes e jornalistas estrangeiros. Mantêm contatos regulares com diplomatas estrangeiros e alguns até recebem ajuda material de embaixadas. Esses opositores, como Sánchez, sempre solicitam reuniões com as autoridades estrangeiras que visitam Havana, mas, geralmente, são recebidos por assessores.
O ministro Luiz Felipe Lampreia surpreendeu os cubanos e até mesmo seus colegas diplomatas ao receber Sánchez pessoalmente. Ainda mais porque Sánchez não é, assim, nenhum Stédile. O opositor de Fidel tem mais expressão política no exterior do que em Cuba. O grupo que comanda corresponde em tamanho, mais ou menos, a algo como uma Organização Marxista-leninista-zapatista dos Trabalhadores Revolucionários de Roraima.
Se uma revolução derrubasse Fidel e restaurasse o capitalismo em Cuba, Sánchez certamente não estaria entre seus líderes. Se os Estados Unidos resolvessem invadir a ilha e instaurar um governo em Havana, Sánchez não seria o ungido. Se houvesse eleições com pluripartidarismo, ele poderia, quem sabe, eleger-se vereador.
Então, qual o motivo do encontro que irritou as autoridades cubanas e deixou surpresas as brasileiras, até mesmo algumas muito bem instaladas no Palácio do Planalto? A tradição diz que o Itamaraty não improvisa. É um reconhecimento ao profissionalismo e à competência da diplomacia brasileira. Por isso, o chanceler certamente tinha uma forte razão e um consistente objetivo ao trocar uma conversa com Fidel Castro por um encontro com Elizardo Sánchez. Só que ninguém sabe quais são.
Aparentemente, não há mudanças nas posições do Brasil em relação a Cuba. Mas, alguma coisa o chanceler está ruminando.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília





