Os ataques contra a Iugoslávia vão completar dois meses, muita gente está morrendo e nada de acordo de paz. Há uma razão muito forte para isso: os Estados Unidos não querem acabar a guerra sem que o presidente Slobodan Milosevic seja derrubado. Isso não é dito com todas as letras pelos norte-americanos, mas está cada vez mais claro, por palavras e ações.
Os Estados Unidos tudo têm feito para boicotar a paz. Não querem negociar, exigem que a Iugoslávia aceite suas imposições. Sabotam as tentativas de paz feitas pela Rússia e tentam desmoralizar ainda mais a ONU e seu secretário-geral, Kofi Annan.
Para isso, contam com o apoio, principalmente, da Grã-Bretanha, da Alemanha, do presidente francês Jacques Chirac e dos países vizinhos à Iugoslávia, que querem ver Milosevic bem longe deles. Não é difícil entender alinhando-se três razões. Primeira: a verdadeira razão da guerra é integrar a Iugoslávia ao sistema representado pela Otan e afastá-la da Rússia, acabando com qualquer veleidade dos sérvios de manter uma postura de independência diante dos Estados Unidos e da União Européia. Kosovo e os refugiados são meros pretextos.
Os aliados sabem que isso não será possível com Milosevic no poder e por isso o maior empenho é em derrubá-lo. Esperavam resolver a situação em alguns poucos dias de intenso bombardeio aéreo: se Milosevic se rendesse, ficaria desmoralizado perante os sérvios e acabaria perdendo o poder; se insistisse em resistir, seria derrubado por militares e políticos sérvios que lhe fazem oposição.
Nada disso aconteceu. Os norte-americanos e seus aliados subestimaram Milosevic e a resistência dos sérvios. Demonizaram a imagem do presidente iugoslavo - que não é nenhum santo - e exploraram ao máximo as imagens dos kosovares-albaneses refugiados, mas isso não foi suficiente. Aliás, diferentemente do que tentam passar os aliados, Milosevic não é um ditador: submeteu-se a três eleições depois do fim do comunismo na Iugoslávia e ganhou as três. Há oposição à direita e à esquerda. E a resistência sérvia mostra que ele tem apoio popular.
Segunda razão: os países vizinhos à Iugoslávia, especialmente os que integravam a antiga Iugoslávia comunista (eram seis repúblicas), temem o expansionismo sérvio. As mais recentes lutas entre sérvios, croatas e muçulmanos bósnios estão longe de terem sido superadas. Croatas e muçulmanos acham que Milosevic retomará o projeto da Grande Sérvia e voltará a atacá-los.
Diante disso, é óbvio que esses países torcem pela Otan, prestam toda a ajuda requerida pelos aliados e esperam ansiosos o fim de Milosevic. A aproximação das ex-repúblicas iugoslavas e de outros vizinhos da Sérvia aos Estados Unidos e à União Européia é para eles muito mais interessante do que manter os antigos vínculos com a Rússia, envolvida em sucessivas crises políticas e econômicas.
Terceira razão: nada melhor para submeter a Iugoslávia aos Estados Unidos e à União Européia do que destruí-la. Acabar com fábricas e refinarias, demolir escolas e hospitais, arrasar casas e edifícios residenciais, derrubar pontes e cortar estradas e ferrovias. Provocar o caos econômico, a fome e o desespero da população.
Nesse quadro, os países da Otan aparecerão como a única esperança de reconstruir o país, e assim serão recebidos de braços abertos pelos sérvios, como foram os aliados da Segunda Guerra Mundial nos países que libertavam do nazismo. Um novo Plano Marshall será posto em execução e as empresas norte-americanas e européias terão um fabuloso mercado para seus produtos.
A dependência econômica levará inevitavelmente à dependência política, pois é assim que as coisas têm funcionado em todo o mundo. Não é à-toa que os Estados Unidos e a Alemanha já disputam a hegemonia sobre esse atraente mercado.
Tudo isso só será possível sem Milosevic e com um governo iugoslavo submisso aos países que comandam os bombardeios. Os ataques aéreos têm sido intensificados para forçar a rendição incondicional dos sérvios.
Os aliados ainda têm a esperança de que Milosevic caia logo. Porque se isso não acontecer, estarão num grave impasse: a guerra que inventaram está a cada dia menos popular e a única alternativa a um acordo de paz será invadir a Iugoslávia por terra. E a Otan morre de medo de enfrentar esse novo capítulo que não estava no roteiro original.

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