Cabeça raspada. Indumentária alusiva à cultura indiana. Devidamente caracterizado para a entrevista à FOLHA, o palestrante e praticante da filosofia védica, o londrinense Gourasundar Dasa deixa claro: não é preciso estar como ele ou no estereótipo do Hare Krishna, para seguir os ensinamentos da filosofia védica. Gouras, como prefere ser chamado, enfatiza o equilíbrio e a tranquilidade como pontos positivos das práticas diárias.

O que é a filosofia védica?
A filosofia védica é pautada nos Vedas, que significa conhecimento, e traz, em sua literatura - que data mais ou menos de 5.200 anos atrás -, todos os campos da sociedade. Porém, toda essa cultura, seja voltada à medicina ou à arquitetura, está centrada em Deus.

Trata-se de uma religião, certo?
Sim. Para muitos soa como surpresa, mas a filosofia védica, em si, é focada em Deus. Lançamos mão da cultura exatamente porque, mesmo havendo o conhecimento, os preceitos e as práticas, a aplicação abrange toda a vida. Um exemplo é o sistema social védico, que propõe as determinadas fases da vida de uma pessoa e da sociedade. Muitos autores ocidentais traziam essa divisão, tais como Maquiavel e Platão.

E quem é Deus, na filosofia védica?
Obviamente, não é um velhinho barbudo que está em cima da nuvem, jogando raio. Isso é uma alegoria infantil. A filosofia védica entra em detalhes minuciosos da figura de Deus, tirando essa impressão lúdica. Um de nossos livros principais traz desde a criação do universo, partindo para como é Deus, as encarnações, previsões futuras.

Quais os ensinamentos que a filosofia traz?
Basicamente, poderíamos resumir tudo em amor a Deus. A idéia é sair dessa roda de nascimentos e mortes, seja você homem, mulher, gato, cavalo, mais rico ou mais bonito, do mundo material envolto pelas ditas ''misérias'', afinal de contas, esta não é a nossa casa. A finitude, as doenças, não são mais focadas. Começa-se a desenvolver um gosto muito maior pelas práticas espirituais.

Mas as doenças estão aí, os problemas também...
A idéia é: vida simples, pensamento elevado. Meu mestre espiritual, por exemplo, diz que o homem é sempre um cavalheiro, uma pessoa bem educada, procurando sempre ajudar as pessoas e focando a vida para o lado espiritual. É evidente que a pessoa vai trabalhar - especialmente se não for um monge -, é claro que vai se preocupar com isso, só que ela sabe que isso tudo é temporário. Desenvolve-se o conhecimento e não um dogma.

E quais os ganhos desse conhecimento?
As pessoas passam a viver de maneira mais tranquila e equilibrada, sabendo lidar com as adversidades de maneira muito melhor, pois são típicas do mundo material.

A filosofia védica não gera o fanatismo?
Como diria um de nossos mestres, religião sem filosofia é fanatismo, assim como filosofia sem religião é mera especulação.

Há o famoso exemplo do Hare Krishna...
Não vemos problemas nos filmes que estampam nossa filosofia de vida no estereótipo do ''feliz à beça, de bem com o mundo, cantarolando'', pois de fato a vida do devoto é pontuada por essa alegria. Não saímos cantarolando pela rua. Sabemos que o fim último não é o carro último modelo, o computador novinho em folha. O fim último é o amor a Krishna, ou seja, a Deus.

O Brasil seria um bom país para se aplicar essa filosofia?
Sim. Mesmo a maioria do país sendo cristã, não há a intenção, dentro da filosofia, de que alguém deixe de ser cristão. A pessoa, pode, ao menos, levar a religião de forma melhor. Somos contra a pregação. Não queremos converter ninguém.

Serviço:
Palestra gratuita com o tema ''Cultura indiana: uma introdução à Filosofia Védica'', hoje, às 17h, na Vila Cultural Brasil (Rua Uruguai, 1656). Informações pelo (43) 3324-8056.

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