Durante todo o mês de janeiro a chuva não deu trégua. Uma grande quantidade de água caiu, e ainda cai, na maioria das cidades brasileiras. Em Londrina não foi diferente. De acordo com o Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar), normalmente, em janeiro, chove cerca de 212 mm na cidade. Mas o índice já ultrapassou os 362 mm.
Para se ter uma ideia, este é o quinto janeiro mais chuvoso desde 1976 em Londrina. A informação é da rede de estação meteorológica do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). E a previsão é de mais água para o final de semana. A chuva começa a dar trégua somente a partir de segunda-feira.
Os temporais causaram muitos estragos. Famílias ficaram desabrigadas e pessoas perderam a vida devido às inundações e deslizamentos de terra. Felizmente, em Londrina não houve grandes catástrofes. ''Se não tívessemos os fundos de vale, provavelmente a situação seria diferente'', afirma José Luiz Faraco, arquiteto urbanista e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Em entrevista à FOLHA, ele explica porque a cidade não está vulnerável aos incidentes causados pelo excesso de chuva e aponta ações capazes de evitar futuros problemas.
Londrina é uma cidade vulnerável aos incidentes causados pelo excesso de chuva?
Pela vivência que tenho em Londrina não creio que ela seja vulnerável aos problemas que diversas cidades brasileiras estão passando devido a grande intensidade de chuvas. Londrina tem uma política urbana importante no que se refere a preservação dos fundos de vale que desempenham um relevante papel na macro drenagem da cidade.
Então os fundos de vale estão em boa situação na cidade?
Sim. Isso decorreu do Código Florestal que desde 1965 estabelece que os fundos de vale são áreas de preservação permanente. Muitas cidades descumpriram a legislação federal, mas Londrina adotou essa política. Salvo os problemas com bocas de lobo, a cidade não apresentou nenhuma inundação e outros problemas significativos. Se não tívessemos os fundos de vale provavelmente a situação seria diferente.
E o sistema de escoamento é adequado?
Nós temos problema com a manutenção do sistema. Temos entupimento das bocas de lobo. Londrina tem apenas um caminhão para limpeza que está quebrado. Isso é um problema. Mas o fato de Londrina exigir que os proprietários dos loteamentos executem a rede de drenagem é um ponto satisfatório.
Outra vantagem é a quantidade de terrenos vazios na cidade, o que colabora com a absorção da água. Existe esse lado positivo, mas tem o negativo. Esses terrenos deveriam estar ocupados porque apresentam infraestrutura. Os lotes vão passar a ser ocupados e o problema pode se apresentar.
É importante manter espaços gramados nos imóveis para ajudar na absorção da água?
A própria legislação de zoneamento já exige que uma parte do terreno fique descoberto para absorver parte da água da chuva. Mas não podemos exigir uma taxa de permeabilidade muito grande porque encarece muito o imóvel. A grama é importante, mas a água pode ser captada pelas calhas. É importante exigir a captação da água da chuva. Mas, ao fazer a captação, deve-se criar um sistema para que parte dessa água continue alimentando os lençóis freáticos.
Quais as ações capazes de evitar futuros problemas com o excesso de chuva?
A política dos fundos de vale deve ter continuidade e deve haver ampliação da área. Existe uma Lei Federal que fala em 30 metros para cada lado das margens das águas correntes ou dormentes. Londrina adota esse mínimo, mas nós temos cidades que adotam dimensões maiores. Eu acho que a dimensão da área de preservação permanente deveria ser maior do que 30 metros. Deveríamos discutir no âmbito do Plano Diretor Municipal a adoção de uma política que aumente essa faixa de preservação.
Deveriam cuidar das vias marginais aos fundos de vale. Em São Paulo, quando foram feitas as marginais do Rio Tietê, houveram muitas críticas, pois causou problema no trânsito devido às inundações. Nós não temos esse problema aqui. Se adotássemos uma política de ampliar as faixas marginais seria uma prevenção imensa.
Outro cuidado é com o traçado do sistema viário. O traçado da via possibilita uma maior ou menor velocidade da água da chuva. As calçadas também são importantes. Ela devem ter faixas permeáveis para absorver a água. Além disso, deve haver preocupação com as áreas públicas. Existem loteamentos populares que não têm como exigir uma taxa de permeabilidade, pois o lote é pequeno. Mas nas áreas públicas é importante deixar um espaço descoberto, principalmente em locais que podem sofrer uma impermeabilização muito grande.
De modo geral qual é a situação do Paraná? O estado é suscetível a grandes incidentes?
As realidades são diferenciadas. Depende do tipo do relevo, do solo, da bacia hidrográfica. Mas nós não temos verificado no Paraná grandes problemas urbanos. Mas isso não significa que eles não existam. Em Curitiba às vezes acontecem problemas. Muitas obras foram feitas nas cabeceiras do Rio Iguaçu, minimizando os processos de inundação que ocorriam na região do Boqueirão. Curitiba canalizou muitos rios, o que é um problema. Uma grande virtude de Londrina é não ter canalizado os rios. O pouco que nós temos canalizado está na Via Expressa.

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