Final de ano, festas, viagens para a praia. Com o calor do verão, é muito provável que muitos procurem alívio na cervejinha gelada. Mas para uma certa galera, isso é proibido. Crianças e adolescentes não devem consumir bebida alcoólica. Impedir a prática, no entanto, não é tarefa fácil para os pais, ainda mais quando os jovens já são mais independentes e próximos da maioridade.
Recentemente, São Paulo passou a punir os donos de bares onde adultos comprarem bebidas alcoólicas e repassarem para menores de idade. Nesse ponto, se abre a discussão se isso não seria um excesso de zelo. Afinal, controlar os filhos é uma tarefa que cabe aos pais ou ao Estado?
Para Jackeline Giusti, psiquiatra da infância e adolescência do Ambulatório de Adolescente e Drogas da Universidade de São Paulo (USP), a questão não é tão simples. Muitos pais sabem que não devem deixar os filhos consumirem álcool, mas têm dificuldade em controlar isso. A saída, segundo ela, é acompanhar os adolescentes de perto, orientar e, se necessário, buscar ajuda profissional.
O adolescente tem como avaliar os danos que a bebida pode acarretar?
Não. Todo adolescente tem como característica experimentar um monte de coisas e não tem maturidade para julgar o quanto isso é prejudicial. Por eles ainda não terem uma identidade, eles vão mudando. Um hora eles estão com uma turma que tem o hábito de jogar futebol, outra hora estão com uma turma que tem o hábito de beber. Eles mudam de turma para experimentar comportamentos novos e uma vez que estão na turma, a identidade deles fica diluída, ou seja, eles mesmos não têm essa maturidade para escolher.
Os adolescentes se sentem inseguros, apesar de diante do pai terem algumas argumentações tão fortes, que até deixam os pais em dúvida. Mas faz parte da idade ficar contestando, testando e faz parte (das obrigações) dos pais protegerem os adolescentes. Eles estão em uma fase de sair de casa e se aventurarem mundo afora. Cabe aos pais ficar na retaguarda, dar limites e ficar observando de perto e cobrando alguns resultados.
Em São Paulo existe uma nova lei que pune o bar que deixar um adulto comprar bebida alcoólica para fornecer a um adolescente. Isso não é um excesso de tutela?
Se está escrito que menor de 18 anos não pode beber, tem que ser cumprido. Uma pessoa imatura bêbada faz muito mais coisa errada do que um adulto. Acho muito importante a cobrança da lei que já existe. É difícil para um pai dizer que não pode. O jovem vai argumentar que todo mundo bebe, que todo mundo vai para o bar beber. Eu já ouvi de um pai: ''Não quero que meu filho seja um ET. Sei que isso não faz bem para ele, mas sei que a maioria faz.''
É difícil dizer que não pode se não há ninguém que puna, ninguém que olhe. Se existe uma fiscalização as pessoas começam a praticar, como se faz com o cinto de segurança. Um adolescente que bebe se coloca mais em risco, até mesmo pela idade, pois são mais impulsivos.
Não seria melhor uma campanha para conscientização dos riscos?
Acho importante a educação, acho importante explicar o porquê, mas acho que em alguns momentos não falta educação. Quando falamos em classe média alta, são famílias que sabem disso tudo, são adolescentes que estudam em escolas particulares. Dentro de uma classe superprivilegiada, eles têm dificuldade em aplicar nos filhos o ''não pode''. Acho importante a educação, mas se existe uma coisa proibida, tem que se fazer valer o que é proibido.
O adolescente é muito de questionar: ''Por que isso pode e isso não pode? Por que não posso beber na rua e posso beber em casa?''. Na verdade, não se pode beber em nenhum lugar. Mas se ele não bebe em casa porque o pai não deixa e bebe na rua e ninguém fala nada, ele acha que o pai está mentindo. É assim que o adolescente funciona. Ele não consegue acreditar que aquilo realmente vai fazer mal. É preciso educação, conscientização dos pais, apoio das escolas e ter essa proibição na rua também.
A nossa sociedade de uma certa forma incentiva o consumo de álcool em todas as ocasiões. Isso para os adolescentes é bem complicado, não é?
Sim, por isso digo que é importante estar bem com o que está falando porque seu filho está te observando. Ele anota tudo que você faz e um dia ele usa isso a favor dele. ''Se você faz, por que eu não posso fazer?''. Essa conscientização geral é muito importante porque senão fica até difícil para você argumentar com um adolescente, com uma criança. Os pais precisam dar exemplos. Se o pai está presente na vida do adolescente, se vê com quem ele está andando, se vai buscar na balada, ele sabe como o filho chega em casa.
O adolescente pode também adquirir uma identidade do cara que bebe e fica engraçado, porque se ele não bebe é calmo e aí começam a incentivar porque gostam dele ''palhaço''. Beber frequentemente também pode fazer com que ele assuma uma identidade que vai levar a beber. Tem que tomar cuidado com isso.
Os adolescentes não têm noção do quanto podem beber, geralmente eles bebem para ficarem bêbados, mas até fazer o efeito, eles já passaram da conta. É fácil o pai perceber que o filho está bebendo, porque ele não sabe beber. Então é hora de limitar algumas coisas. Se o pai não fala nada, eles vão começar com mais e mais. Eles precisam de supervisão, não é proibir, mas dar limites, horários. Se o pai está atento ele vai perceber o filho alterado. Tem pai que não fica nem sabendo.
O álcool age de forma diferente no adolescente, fisiologicamente falando?
Não, mas eles bebem de uma forma mais agressiva do que o adulto. Bebem quantidades maiores. Às vezes já vão para os destilados porque não querem degustar e sim ficar bêbados. As consequências orgânicas eles só vão perceber quando forem adultos, é um organismo muito novo e não aparece. O mais importante é o adolescente que começa a beber com 11, 12 anos de idade, época em que eles começam a se relacionar. Eles bebem e percebem que para dançar fica mais fácil, para chegar perto de uma menina fica mais fácil. Ele começa a desenvolver as habilidades sociais sob efeito de álcool. O dia que ele não pode beber, ele não vai, não sai de casa. Isso já mostra um papel muito importante do álcool na vida do adolescente, ele não consegue desenvolver as habilidades sociais sem o álcool.
Quando tiver 16 anos ele vai agir socialmente igual a um menino de 10, porque não sabe e precisa do álcool para isso. Ele tem que fazer vestibular, escolher uma profissão, que são coisas importantíssimas na vida do adolescente, e se passar essa fase sob efeito de álcool, vai ter déficits cognitivos, no desenrolar da vida dele vai ter menos sucesso do que teria sem a bebida.
Quando não bebe ele desenvolve tudo isso ''na cara dura '' e consegue. Todo mundo passa por isso. Se ele usa (o álcool) assim, tem grandes chances de se tornar um dependente, porque sem o álcool ele não é nada. Mas falamos de meninas também, porque nessa fase eles e elas bebem da mesma maneira.
As meninas estão bebendo mais?
Na fase da adolescência eles usam drogas, bebem, tudo muito próximo. Todas as pesquisas mostram isso. Com a idade isso vai mudando e se torna mais prevalente nos homens do que nas mulheres. Para a menina também tem a questão social, do dançar, do ficar.
Quando os pais devem buscar ajuda?
No primeiro porre eles devem conversar, colocar limites, dar castigo, mas não adianta dar castigo longo, tem que ser curto porque senão (o adolescente) nem sabe mais porque está de castigo. Na próxima saída vai levar e vai buscar. Dá trabalho, mas filho dá trabalho. Se você não cuidar dá mais trabalho ainda. Se perceber que toda festa ele volta bêbado, os pais devem tentar conversar, saber por que isso está acontecendo e pode ser uma boa ocasião para consultar um profissional. Mas se também ele para de sair porque o pai leva e busca e ele não consegue beber mais, talvez seja outro momento. Na dúvida, passe por uma avaliação, não quer dizer que todo mundo vai precisar ser tratado. O profissional pode avaliar e orientar a família, nem precisa ser o adolescente. Só o pai sendo orientado já resolve.

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