Há uma dose certa ?
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segunda-feira, 14 de setembro de 2020
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Anda sem rumo o pensamento liberal no século XXI, notadamente se visto em polo de conflito com os reflexos da pandemia. Ainda que não se anunciem seguros, parâmetros apontam um novo normal. A vida, daqui em diante, não se imagina em agressões à natureza – antes o contrário: protege-la salvará a vida na Terra.
Já não estamos, todavia, herdeiros da Terra e sim seus mantenedores. A insatisfação da natureza, cem anos depois da gripe espanhola levar 35 milhões de pessoas, cobra o preço de nosso descaso com o próximo, da exploração exacerbada, do acúmulo agnóstico e, principalmente, do extrativismo injustificado, colorindo com tintas de vergonha nossa narrativa evolucional...
Falamos, todavia, da revista Veja que, em sua melhor versão, gasta a tecla histórica com seu samba de nota só, ao tratar como ajuda do Estado o que seria justiça social mínima.
A matéria sugere o que há de pior no mundo e sequer ao debate em favor de um Estado liberal se demonstra importante, face as demandas represadas na mais valia contemporânea e seus meandros adjacentes, circunstâncias estas que cedem (ou deveriam ceder) espaço a necessidade de isolamento que o vírus convola...
Enquanto o planeta toca uma partitura de agonia, a revista canta sua ode à estupidez, composição quem vem ensaiando há mais de trinta anos por aqui. Miséria maior difícil parir – até para a própria revista veja...
A matéria é um vazio de economia, um nada de sociologia, um zero de empatia, um deserto de ideias. Sua única serventia é robustecer nossa certeza acerca da desimportância da revista que teima, de tempos em tempos, seguir sua sina de coveiro das classes sociais mais sofridas...
Discutir estado mínimo vá lá, que isso atende a pauta neoliberal que soçobrou em Europa, América do Norte e, há séculos, se ocupa de nossa miséria sulista, ensaiando golpes de estado, empoderando ridículos tiranos, matando minorias.
Pautar a discussão de uma renda mínima temporária para quem não consegue comprar comida, em razão da pandemia, sob a ótica de hipotético (e absurdo) clientelismo, isso é rematado absurdo negacionista.
Olhar para o desfavorecido não é apenas pauta política, mas sim querença cristã. Esse entendimento, a revista faz questão de desconhecer, na medida em que, qual alecrim dourado, a Veja sugere (implicitamente) esperar o desafortunado morrer pela fome, mas não capitula diante da necessidade de espraiar a zona de proteção do Estado – ainda que topicamente e na conta do momento pandêmico.
Que gente é essa que perde nosso tempo escrevendo com as tintas da covardia neoliberal uma estória que não tem mais lugar no mundo, sangrando hipóteses negacionistas em desfavor aos desassistidos pela vida? De onde vêm? ‘Bora’ lá tampar o buraco para que eles não tornem a voltar...
Há tanta coisa a repensar em nosso modelo de vida e a estrada que leva a reflexão se anuncia longa e malconservada, a ponto da viagem necessária nos cansar antes dos primeiros passos.
Efetivamente o Bispo de Roma sabia o que sonhava quando ideou uma igreja pobre. Tanto quanto seu xará brasileiro dos azuis olhos da poesia ao sugerir que a dor passa se todo mundo sambar...
Assim, com o cavaquinho e o pandeiro, orquestremos um samba que resgate a esperança mínima de afastar a miséria que dói, entoando um refrão que cale forte na necessária mantença de uma renda mínima, musicando a decência de entender na fome alheia nosso próprio fracasso civilizatório, respeitando o vadio da vida enquanto irmão de infortúnio – que o mundo é redondo, apesar da proliferação imbecilizante de terraplanistas...
Vida que segue, gente que foi e nos faz falta (a benção, Pai), fome que não vi nos olhos de meus filhos, pela graça de Deus e porque, além de não ler porcarias dessa natureza há mais de trinta anos, sigo acreditando no conhecimento da história enquanto instrumento de conscientização e de transformação.
Tristes e estúpidos trópicos – ainda pago pra ver o jardim florescer, qual você não queria....
João dos Santos Gomes Filho, advogado


