Há 95 anos o Paraná foi palco dos acontecimentos que deram início a toda uma nova era na história do Brasil: a Era Vargas. Em 24 de outubro de 1930, terminava, com a deposição do presidente Washington Luís, a República Velha. Tomava corpo um Brasil mais urbano que buscava modernizar-se no conteúdo e na forma.

Em 1930, insurgiram-se contra o sistema político de então as oligarquias de três estados da Federação: Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. Derrotada a Aliança Liberal e seus candidatos Getúlio Vargas e João Pessoa, sendo este último assassinado em julho daquele ano, organizaram-se os políticos e os rebeldes tenentistas para a tomada do poder a partir desses estados.

Isolado do restante do País, em uma época em que não havia ainda rodovias ou veículos de transporte pesado, o Rio Grande do Sul e suas forças insurgentes contavam apenas com a Ferrovia São Paulo–Rio Grande, de bitola estreita, para se transportarem até São Paulo, estado garantidor político e militar do Governo Federal. A Marinha de Guerra se manteve fiel à legalidade, caberia ao Paraná servir de palco à vitória ou não da Revolução, uma situação semelhante à da Bélgica nas duas Grandes Guerras.

Iniciada ao findar da tarde de 3 de outubro de 1930, a Revolução apoiada pelo Governo do Rio Grande do Sul tomou conta de todas as unidades daquele estado em menos de três dias. Às doze horas daquele dia uma coluna armada invadiu Santa Catarina, seguindo pela ferrovia sem sobressaltos até o Rio Iguaçu. Organizados previamente, militares rebeldes revoltaram-se e tomaram o controle das unidades do Exército no Paraná: primeiro em Ponta Grossa, União da Vitória e Curitiba. O Regimento de Cavalaria de Castro permaneceu fiel e se retirou para São Paulo. O presidente do Estado fugiu, o Paraná aderiu à Revolução diminuindo, conforme planejara-se, a guerra civil em cerca de três meses.

Após chefes oposicionistas garantirem o controle sobre Jaguariaíva, os rebeldes paranaenses avançaram em direção a Itararé. Os gaúchos chegados na sequência seguiram pelo Norte Pioneiro, onde os cafeicultores de Ribeirão Claro, Jacarezinho e Cambará já haviam organizado apoio ao movimento. Em Ibaiti, Tomazina e Wenceslau Braz podem ter ocorrido os primeiros movimentos vitoriosos dos rebeldes garantindo o avanço das tropas vindas do Sul.

O Governo Federal e o de São Paulo reagiram, tropas foram enviadas para as divisas do Paraná com aquele estado. Com um impasse em Itararé, forças do Exército, da Força Pública e voluntários da Legião Paulista, a partir de Ourinhos e Fartura, ocuparam as cidades do Norte Pioneiro: Cambará, Jacarezinho, Ribeirão Claro, Santo Antônio da Platina e Carlópolis. Em Joaquim Távora, no dia 9 de outubro, a Brigada Militar Gaúcha derrotou uma Companhia da Força Pública Paulista e se retirou para Quatiguá, então um ajuntado de casas no entorno da estação férrea. Reforçados, os paulistas avançaram ali sobre os gaúchos, que agora contavam com o Destacamento comandado por Alcides Etchegoyen. Eram infantes do Exército, cavalarianos da Brigada Militar e o 6º RAM, artilharia vinda com oito canhões de 75 mm e uma companhia de morteiros. Em 12 e 13 de outubro, naquele pedaço do Norte Pioneiro, a guerra se fez presente, com o uso de metralhadoras, granadas, baterias de artilharias informadas por telégrafo desde a retaguarda, talvez lança-chamas. Os gaúchos venceram, os paulistas se retiraram e queimaram as pontes e as balsas sobre os rios Paranapanema e Itararé.

Os rebeldes tomaram todo o Norte Pioneiro, as tropas gaúchas se preparavam para invadir São Paulo, tomar o entroncamento ferroviário de Bauru e seguir ao Sul de Minas. O Rio de Janeiro era o objetivo final. Antes que mais sangue fosse derramado e que houvesse a tomada de Itararé, generais no Distrito Federal depuseram o Presidente e, depois, Getúlio Vargas assumiu o poder que, por breve interregno, exerceu até entrar em definitivo na história. No Norte Pioneiro do Paraná, nos encontramos com a história do Brasil, uma memória em constante resgate e que nos honra por dela fazermos parte.


Roberto Bondarik, professor titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio
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