Há alimento até demais
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quarta-feira, 28 de agosto de 2002
Walmor Macarini 
Cinquenta milhões de brasileiros padecem de subnutrição, dizem os números oficiais. Faço minhas contas a grosso modo e constato que há alimento suficiente para todos, e em excesso. Tomo o Paraná como exemplo. Vou fazendo divisões e concluo que toca a cada paranaense mais de 10 quilos de alimento bruto a cada dia, durante os 365 dias do ano. Como uma pessoa deve comer em torno de 1 quilo/dia, sobram 9 quilos diários cada. E por que há tanta comida e tantos passando fome? Esta a intrigante indagação.
Vejamos: o Paraná produz 12 milhões e 175 mil toneladas/ano de milho, o que, transformado em farinha e dividido pelos 9.558.454 habitantes do Estado, resulta em 3 quilos e 470 gramas/dia cada um. Produz mais 8 milhões e 280 mil toneladas anuais de soja, que repartidas pela população inteira do Estado, resultam em quase 1 milhão de toneladas a cada bloco de 1 milhão de pessoas, ou 2 quilos e 300 gramas diárias a cada pessoa e a cada um dos 365 dias do ano.
As lavouras do Paraná produzem ainda, por ano, 4 milhões e 435 mil toneladas de mandioca, ou 1 quilo e 150 gramas/dia de farinha para cada cidadão. Mais 2 milhões e 29 mil ton/ano de trigo, que convertidas em farinha darão 600 gramas diárias para cada pessoa, isto repetindo-se todos os dias do ano. Nosso Estado produz 579 mil ton/anuais de batata inglesa, resultando em 140 gramas/dia cada paranaense. Mais 447 mil toneladas de feijão, que significam 140 gramas/dia por habitante. E 224 mil toneladas de aveia, ou 70 gramas/dia por pessoa; e 178 mil toneladas/ano de arroz, ou 60 gramas/dia por boca.
Os laranjais do Estado abastecem os mercados com 1 bilhão e 380 milhões de frutos por ano, o que corresponde a 42 laranjas para cada paranaense, por dia. E sabem quanto gado o Paraná possui? O mesmo número de cidadãos: 9 milhões e 472 mil cabeças. Toca um boi/ano por pessoa, e considerando a média de 16 arrobas cada animal, isto dá quase 1 quilo de carne/dia por cidadão. Naturalmente que os plantéis precisam de 3 anos, em média, para renovar-se, então coloquemos aí 300 gramas/dia de carne por pessoa. E suínos são 4 milhões e 217 mil unidades/ano, bastando fazer as contas do tempo de renovação da manada e de quanta carne e gordura o animal produz e quanto toca a cada consumidor.
E o Paraná ainda dispõe de um rodízio anual de 570 mil ovinos (cabritos e carneiros) e mais 65 mil bubalinos. E quantos frangos e galinhas? Nada menos que 124 milhões e 320 mil unidades/ano, ou um bife médio por dia, a cada pessoa. Tiremos as fêmeas. Mas delas saem os ovos. Quantos? É só imaginar, porque números oficiais não consegui juntar. Ainda falta contabilizar 26 milhões e 460 mil toneladas anuais de cana - e dela sai o açúcar - e mais as hortaliças, as demais frutas, o leite, os peixes e outros extratos alimentares.
Fiz o cálculo bruto de 10 quilos/dia de disponibilidade de alimento, a cada paranaense, mas um amigo economista começou a juntar o produto das hortas e pomares, o mel, os cestos de ovos, e garante que a cota/parte chega a 15 quilos/dia por pessoa. Se meus cálculos de distribuição podem estar errados, asseguro que os números da produção estão corretos. Seria interessante que alguém mais entendido fizesse essa contabilidade, mas é certeza que entre as bocas para consumir e o que se produz, a natureza dadivosa exagerou na dose, e sobra alimento.
Como há estados brasileiros que, em alguns itens alimentares, produzem mais que o Paraná, e outros que produzem menos, ou muito pouco - caso do Nordeste brasileiro - dá para ficar tranquilo porque, comida, o Brasil produz para dar e vender. E ainda há muita terra por explorar e tecnologia para aumentar a produtividade. Não vamos abater o que se destina aos animais, o que se exporta, o que se estraga, o que se perde no transporte, nos armazéns e nas mesas do desperdício. Fiquemos apenas no balanço do que a terra dá e do que as pessoas precisam.
E há gente passando fome! Porque faltou ao homem aprender o jeito de dividir!
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


