Guido Aquino
O flagelo
das drogas
Cinco milhões de pessoas, em todo o mundo, segundo estimativas de organismos oficiais, são usuárias de drogas injetáveis. Esse número impressionante explica o dado divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de que o uso compartilhado de seringas hipodérmicas entre os viciados é hoje responsável por 28% dos casos de transmissão de Aids notificados no Planeta. No Brasil, é importante frisar, o índice de infecção entre usuários de drogas é de aproximadamente 50%.
Essas estatísticas já são suficientemente claras no sentido de demonstrar a gravidade acarretada à sociedade mundial pelo tráfico e o consumo de drogas. Entretanto, o problema, sob o ponto de vista médico, não se resume à transmissão do vírus HIV e de outras moléstias infecciosas. O consumo de entorpecentes, injetáveis ou não, leva à degradação paulatina, física e psicológica, com sérias consequências para cada viciado, sua família e a sociedade de maneira geral.
As drogas podem ser classificadas por sua origem (natural ou sintética) e de acordo com os efeitos que causam no sistema nervoso dos indivíduos. As depressoras - como o álcool, o ópio e seus derivados (morfina e heroína) - reduzem a atividade do cérebro, tornando mais lentos os estímulos nervosos. As estimulantes - como a cocaína, o crack (produzidos com a folha de coca) e as anfetaminas - multiplicam a atividade cerebral, acelerando os impulsos nervosos. As alucinógenas (maconha, haxixe, LSD e cola de sapateiro) causam perturbações mentais. Há, ainda, substâncias que combinam todos esses efeitos. É o caso do ecstasy.
Sejam quais forem as drogas e entorpecentes, o resultado final de seu consumo é sempre a consequência trágica da crônica de uma morte anunciada... literalmente. O uso sistemático dessas substâncias leva à degradação física, psíquica e moral dos indivíduos, constituindo-se, neste final de milênio, num desafio imenso para governos, organismos policiais, sociedade, famílias, médicos e sistemas de saúde pública. Dada a dificuldade de se combater eficientemente o tráfico - que, segundo o Programa nas Nações Unidas para o Controle Internacional de Drogas (UNDCP), movimenta US$ 400 bilhões/ano, o equivalente a 8% das exportações mundiais - a luta contra os entorpecentes deve ser tratada justamente junto a seu elo mais frágil e exposto, os viciados.
A questão extrapola as discussões jurídicas sobre a descriminação das drogas ou os programas polêmicos de distribuição gratuita de seringas hipodérmicas aos viciados. Trata-se de um desafio a ser vencido pela sociedade como um todo, a começar no âmbito familiar, em que os pais têm imensa responsabilidade no sentido de orientar seus filhos, perceber suas reações, identificar alterações de comportamento, impedir que se viciem e socorrê-los em tempo quando mergulham no vício.
Papel fundamental têm, também, as escolas, no sentido de orientar os jovens. Ao poder público cabe dupla tarefa. A primeira, voltada ao melhor aparelhamento e preparo do aparato policial, visando maior eficiência no combate ao tráfico; a segunda, representada por campanhas preventivas mais incisivas. Aos médicos e sistemas de saúde, numa ação multidisciplinar, cabe igualmente uma grande responsabilidade, tanto na orientação preventiva, quanto na recuperação dos viciados.
O flagelo das drogas é uma realidade com a qual não se pode conviver numa atitude omissa e irresponsável. Trata-se de um problema muito sério, que, até agora, tem imposto fragorosa derrota a todas as nações. Por isso, o combate mundial às drogas deve ser encarado com muita seriedade e suscitar programas eficientes para o enfrentamento da questão.
- GUIDO AQUINO é médico oftalmologista em São Paulo

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