Guerra santa
Não há como Nicolau Maquiavel para explicar como as coisas se passam no âmbito da política. Justamente por isso, volto tantas vezes ao pensamento do mestre do poder quando escrevo sobre temas políticos. E por favor, não me venham dizer os neomarxistas cristãos, democráticos e um tanto liberais (desvios que Karl Marx deve deplorar no além), que só a leitura de O Capital salva. Afinal, Marx considerou o pouco conhecido livro de Maquiavel, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, verdadeira obra-prima, e Engels, na Dialética da Natureza, descreve Maquiavel como um dos gigantes do Iluminismo e um homem liberto do enfoque pequeno burguês.
Pois bem. No muito citado e pouco lido O Príncipe, Maquiavel coloca a religião como uma das virtudes mais importantes que o governante deve aparentar possuir. Como explica um dos estudiosos do florentino, Lauro Escorel, o político inteligente respeitará sempre a religião, ainda que nela não creia, porque de sua influência sobre o povo só lhe poderão advir vantagens. Aliás, qualquer príncipe, dos graúdos aos mais chinfrins, parece intuir o valor da religiosidade em política, seja falsa ou verdadeira sua crença.
Observe-se ainda, que religião e política sempre estiveram intimamente associadas ao longo do tempo. Inclusive, vários estudos demonstram que entre os povos primitivos, poder e sacralidade sempre estiveram juntos, e os líderes do grupo eram dotados tanto do poder político quanto de uma força que, supunha-se, era emanada de uma ordem cósmica. Na Antiguidade, poder real e poder divino se fundiam.
Só para citar uma civilização das mais notáveis, a egípcia, lembremos de que em tempos memoráveis o faraó era aceito como deus vivo e pela sua boca, acreditava-se, falavam os deuses. Na Idade Média, o poder dos reis absolutistas foi considerado de origem divina. Já na Espanha dos reis católicos Fernando e Isabel, levou-se a cabo a Nova Inquisição onde política e religião entrelaçavam-se de modo tenebroso. Na América Latina fomos forjados pela cruz e pela espada, e os Estados Unidos prosperaram em grande parte por conta do protestantismo, que associava salvação e prosperidade terrena.
No mundo atual, com exceção de algumas raras teocracias como as dos aiatolás, líderes políticos, sem a unção divina sobre suas cabeças, esforçam-se cada vez mais para efetivar feitos notáveis. De todo modo, nunca deixam de lado a religião, mesmo que nela não creiam. Sobretudo em épocas de campanha, o fervor dos candidatos se acentua, assim como as jogadas que incluem a religião, porque daí só poderão lhes advir vantagens.
No Brasil do samba, pagode, humor e muita simulação religiosa, não falta também um maquiavelismo à nossa moda. Basta ler os jornais. Eu mesma vi nesta semana uma notícia que integra de modo anedótico a tática da batalha pelo voto à religião. A matéria referia-se a uma tirada de Leonel Brizola, que com seu inconfundível estilo atacou o pré-candidato do PSB à Presidência da República, Anthony Garotinho, antes seu correligionário e hoje seu desafeto.
Brizola aproveitou a entrevista que deu numa rádio, para dizer que Garotinho não é evangélico e sim cultiva valores muçulmanos. Concluiu, então, que o governador do Rio de Janeiro apenas se diz evangélico para tirar proveito político. Em cima de tais constatações bastante peculiares, fez ainda um alerta ao povo evangélico, para que tenha cuidado porque naquela cara redonda (a do governador) pode estar o próprio demônio.
Isso, claro, é um efeito de retórica, uma afirmação disparatada, pois mesmo que Garotinho cultivasse valores muçulmanos, o que não deve ser verdade, o que tem a ver tais valores com o demônio? Entretanto, através de sua longa trajetória de político, Brizola sabe que esse tipo de coisa pode fazer efeito, porque a política é desenvolvida entre os eleitores muito mais como emoção do que como razão. Daí os apelos emocionais feitos durante as campanhas visando a conquista dos votos. E se tais apelos envolverem religião se tornarão praticamente imbatíveis, apesar que de uns tempos para cá já se nota um certo amadurecimento do eleitorado brasileiro.
À simulação religiosa, acrescentam-se outras. E de novo pode-se ler em O Príncipe, que não é necessário que ele tenha todas as qualidades, mas que deve aparentá-las todas. Assim é bom ser misericordioso, leal, humanitário, sincero e religioso, como é bom parecê-lo. Naturalmente as aparências são reforçadas durante as campanhas, quando o eleitorado entra no ritmo do me engana que eu gosto.
Da arte de enganar por sua vez surgem certos mitos ou crendices, que enfatizam lados bons ou ruins dos candidatos ligados a vícios ou virtudes. Assim, se pode dizer de determinado político: Aquele lá bebe, apesar do infeliz nunca ter ingerido uma gota de álcool. Aquele outro é muito inteligente, ou preparado para o cargo, ou honesto.
No plano mais amplo da ideologia a mesma coisa acontece, gerando certos modismos que são repetidos como mantras até tornarem uma inverdade em verdade. Vejamos alguns exemplos: O liberalismo é o mal. O socialismo é o bem. O capitalismo avança para a derrocada final. O socialismo triunfou e a União Soviética ainda existe. Em Cuba existe democracia e desenvolvimento.
Aos poucos, de tanto se repetir determinadas afirmações, especialmente através da mídia, elas vão se tornando verdades para a maioria, pois poucos possuem a capacidade de aprender por si próprios. Donde se conclui, que para uma ideologia ou alguém se tornarem verdadeiros, são necessários apenas alguns simples fatores como: capacidade de simulação, repetição constante do irreal como real, uma boa assessoria de marketing e, sobretudo, muita religiosidade.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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