Guerra na América
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de setembro de 2001
Luiz Antonio Pedro 
Os recentes acontecimentos nos EUA, e que abalaram o mundo, remetem-nos a duas reflexões de suma importância para o entendimento de tais fatos e a compreensão da relação entre os homens. A primeira é de caráter filosófico/religioso e a segunda está diretamente relacionada ao aspecto histórico da formação socioeconômica e política da sociedade contemporânea.
No final do século XX e na incerteza do que seria o século XXI, muitos foram os que defenderam e ainda defendem a idéia de que estamos em plena era do Espírito, onde o homem buscaria a harmonia, a paz, a felicidade e principalmente a fraternidade entre os homens. Seria o fim das guerras, conflitos e o início de uma nova ordem mundial. Porém, diante dos fatos, somos levados a crer que a humanidade ainda está longe de alcançar a tão almejada paz mundial. Os acidentes ainda predominam sobre a essência e os meios ainda prevalecem sobre o fim, que é o homem.
E por falar em homem, pode-se afirmar que sua essência está diretamente relacionada com o belo, o bom, o uno e o verdadeiro. São estes quatro aspectos de nossa essência que buscamos ardentemente como verdade a ser vivida. Porém, somos tomados de surpresa a até de pânico ao descobrirmos que muitos buscam e praticam justamente o contrário.
O que vemos é a destruição, a maldade, a divisão e a mentira sobrepondo-se à essência do homem. Não foi diferente no início do século XX, quando a chamada Belle Epoque dava uma falsa sensação de paz e segurança, como se o homem houvesse encontrado o caminho do equilíbrio.
O segundo aspecto diz respeito à questão da formação do Estado nacional e nos remete a uma reflexão sobre o novo papel do Estado e a nova ordem mundial no século XXI.
A maioria dos Estados nacionais da América Latina, do Leste Europeu, do Oriente e do continente africano foram formados sob a forte dominação do imperialismo econômico, do final do século XIX e início do século XX, liderados pelos EUA e Inglaterra. Muitas tribos africanas, que eram inimigas milenares, foram obrigadas a viver sob uma mesma bandeira, simplesmente porque países como a Itália, Alemanha, França, Inglaterra, Holanda e outros assim o desejaram, sem nenhum critério étnico-cultural.
Estados do Leste Europeu, como as repúblicas que constituíram a antiga URSS foram obrigados a viver sob um único governo, sendo que sua história ou formação político cultural é de antagonismos e guerras. Os bascos até hoje ainda buscam sua independência na formação do Estado Espanhol; os curdos ainda hoje são massacrados por não aceitarem a dominação do Iraque; os chiapas ainda buscam sua independência no México; os palestinos não aceitam e jamais aceitarão ser dominados ou governados pelos israelenses, bem como não aceitam os EUA por serem eles que ditaram e ditam as regras de paz daquele espaço. E poderíamos enumerar vários outros países e povos que foram subjugados e aguardam ansiosamente o grito de liberdade, assim como aconteceu em outras épocas em que os mais fortes sempre dominaram os mais fracos.
Não foi diferente durante o Império Egípcio, na famosa história da travessia do Mar Vermelho; também não o foi durante da dominação romana no mundo então conhecido e tantos outros impérios que fizeram sua história em nossa história. A diferença está justamente no fato de que os avanços da ciência e da tecnologia contribuem para que estas revoltas sejam mais monstruosas e destrutivas do que as anteriores. Porém, a essência é a mesma.
O mundo está calado, contando as vítimas e se lamentando do ocorrido, como não poderia ser diferente. Alguns já pensam em retaliações, outros em vingança e porque não em terceiro grande conflito mundial. A verdade é que temos que aprender com nossos próprios erros e corrigi-los para que não aconteçam novamente no futuro. Mais do que imaginar o que deveria ser feito com aqueles que provocaram tamanha destruição, está na hora de repensarmos a formação do Estado nacional e a nova ordem mundial que se desenha para o futuro.
Ignorar nosso passado e tentar remendar o que foi feito é como tapar o sol com a peneira: engana em um primeiro momento mas não elimina o grande problema que é a luz que atravessa. O grande problema atual não é o ataque aos EUA e nem a ação dos grupos terroristas pelo mundo afora. O nosso grande problema é como conviver e cuidar do filho que nós próprios criamos, para que no futuro ele possa ser diferente do que é hoje e realmente buscarmos e alcançarmos a beleza, a bondade, a verdade e a unidade entre os homens.
- LUIZ ANTONIO PEDRO é filósofo, historiador e professor universitário em Maringá


