Guerra, miséria e petróleo
Terminou a novela do antraz. O assunto nasceu e morreu sem ninguém notar na guerra ao terrorismo, que Bush fez aos talibãs do Afeganistão, aos muçulmanos e árabes em geral, residentes nos EUA ou alhures, supostos agentes do terror. O caso não foi esclarecido, mas detonou rancores e injustiças. Muitos inocentes ainda estão presos nos EUA. Estranhamente, porém, as autoridades americanas vetaram, na ONU, as sanções aos remetentes de cartas com antraz. Vencidos os talibãs, surgem, após esse veto, dúvidas sobre os motivos reais da guerra afegã.
Ex-ministro do Paquistão, Niaz Naik soube, em julho de 2001 quando o general Colin Powell propôs, ali, uma aliança antitalibã que os EUA atacariam o Afeganistão em outubro. O ataque às torres de Nova York só se deu em setembro(!).
Bush diz que seu país é pacifista, embora atuasse em tantos conflitos após a Segunda Guerra Mundial. Por que não provar esse pacifismo? O mundo talvez relevasse as intervenções dos EUA na Coréia, Vietnã, Granada, Irã, Iraque, Líbano, Guatemala, Panamá, Líbia, Somália, Sudão, Quênia, Tanzânia, Sérvia... Em 1998, Dick Cheney, empresário de petróleo, hoje vice de Bush, quis construir um duto no Afeganistão para levar petróleo e gás do Cáspio ao Paquistão e vendê-los a esse país e à Índia.
Quantas coincidências! Em 1996, talibãs foram a Washington e ao Texas estado que Bush governava para tratar, com a Unocal Petróleo, do projeto desse duto de 1.200 quilômetros e US$ 1,4 bilhão. Em meio a negociações difíceis, no inverno de 2000, o atual enviado de Bush a Cabul, o afegão-americano Zalmay Khalilzad, pregou a desestabilização do regime talibã, apostando na doutrina de domínio do espectro total do mundo militar, econômico e político pelos EUA.
Tal doutrina cresceu com o grupo petroleiro na Casa Branca: Bush; Condoleeza Rice, sua assessora de segurança, ex-diretora da Chevron; e Cheney, da Halliburton. E firmou-se com a fragilização mundial, causada pelos estragos da economia integrista, que ignora a realidade social e vê a sociedade como soma de indivíduos sem conflitos. Assim é no Brasil e na Argentina. O FMI impôs a falência política de seus legislativos. Para o economista Marco Antônio Campos Martins, os legisladores aceitaram isso e deram poderes autocráticos aos respectivos governos, que legislaram para os interesses externos, desprezando os de seus povos.
Em transe, a Argentina já reagiu ao antraz que a corroía e levava os argentinos à miséria. E o Brasil? Para o governo, vai bem, obrigado. Habituou-se ao antraz.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





