Guerra e paz
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de março de 2003
Aguinaldo Pavão 
A guerra de um país contra outro é, num certo sentido, a extensão natural das hostilidades que nutrimos uns pelos outros cotidianamente. O que importa é a regulação dessas animosidades. Como Hobbes sabiamente dizia, basta às vezes uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião ou qualquer sinal de desprezo para que se deflagre um estado de guerra entre os homens. Por ninharias, como ele escreveu, o homem pode se tornar o lobo do próprio homem.
Isso faz parte dos traços nucleares da natureza humana. Acredito que apenas num mundo sem homens a guerra seria inconcebível. Enquanto homens, e não anjos, pisarem o chão desse vale de lágrimas, a paz sempre terá de ser perseguida como um bem que se busca, do qual nos aproximamos e podemos administrá-lo, mas que não se pode gozá-lo de modo tranquilo e absoluto.
É um bem que sempre pode escapar de nossas mãos. Talvez a maior de todas as façanhas humanas consista precisamente na proeza de evitarmos a ameaça constante da guerra, da violência sistemática.
Assim, soa-me excessivamente lírica a idéia de paz universal, de uma humanidade completamente desarmada. Além do que, desejar a paz é totalmente compatível com fazer a guerra. Na verdade, a guerra muitas vezes é imperativa justamente para se alcançar a paz.
Digo tudo isso porque seria favorável a uma guerra contra o Iraque sob a chancela da ONU, embora, é claro, nem tudo que é chancelado pela ONU vem a ser, por si só, legítimo. Isso é válido sobretudo ao se tratar de um Conselho de Segurança que no fundo é um órgão político.
Pois bem, a meu ver, a ONU deveria ter autorizado essa guerra. A ONU deveria ter sido mais dura com o ditador iraquiano. Penso que os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 deixaram um tanto ultrapassados os tradicionais ''casus belli'' legítimos.
Além disso, é preciso reconhecer que o domínio tirânico de Saddam Hussein sobre o povo iraquiano seria uma razão suficiente para uma guerra que visasse retirá-lo do poder.
A deposição de Milosevic deveria ser um referencial para deixarmos de lado esse blá-blá-blá sobre a soberania nacional. Um governante que impede liberdades individuais elementares, que massacra minorias com gases venenosos, que faz ameaças ao mundo, torna legítima uma guerra para arrancá-lo de seu posto. Todavia, a ONU não pensou assim.
Os Estados Unidos, ao adotarem uma saída unilateral, comprometem a idéia de uma ordem jurídica mundial como instância legitimadora das ações coercitivas das guerras. Eis aí justamente o que há de mais lamentável no ataque ao Iraque.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina


