Esta guerra que parece estar terminando na Iugoslávia não foi bem uma guerra. Foi um massacre. Nada menos do que as maiores potências do mundo bombardeando sem cessar um pequeno país durante mais de 70 dias. O pequeno país sem ter as mínimas condições de se defender, tal a diferença militar e tecnológica.
Como se fosse um jogo de futebol entre a seleção dos melhores do mundo, dirigida pelo melhor técnico do mundo, e um pequeno time de terceira divisão. Mas não só isso: o pequeno time sem direito a ter goleiro e o juiz roubando descaradamente. E com sua pequena torcida proibida de entrar no estádio.
Na verdade, não foi uma guerra. Na guerra, os oponentes se confrontam, há perdas dos dois lados, territórios são conquistados como consequência da luta que envolve pelo menos dois exércitos. Nada disso aconteceu, era só um atacando sem sofrer perdas, o outro procurando se defender e contando suas vítimas.
Agora que o conflito, pelo menos nessa fase, provavelmente chega ao fim, serão feitas as análises sobre quem ganhou e quem perdeu. Algo que vá um pouco além do óbvio, de que a Otan ganhou e a Iugoslávia perdeu. A Otan conseguiu impor a maior parte do que queria e os iugoslavos tiveram de aceitar.
Mas os maiores perdedores, como sempre, foram aqueles que, se fossem ouvidos, teriam impedido o início do massacre. As pessoas ditas comuns, os civis que tinham uma vida normal na Sérvia e na sua província de Kosovo. Os kosovares-albaneses que morreram, que foram feridos no corpo e na mente, que tiveram de abandonar suas casas e suas terras devido à perseguição perpetrada pelo sérvios. E os sérvios atingidos direta ou indiretamente pelas bombas e mísseis da ‘‘santa aliança’’ da virada do milênio, e também obrigados a deixar suas casas.
Ninguém perdeu mais do que eles, os chamados civis. E o mais trágico é ter a consciência de que nada disso precisava ter acontecido, os resultados que provavelmente serão atingidos com o acordo que se pretende cumprir poderiam ter sido obtidos sem necessidade de mais de 70 dias de bombas e mísseis. Bastava que as duas partes de dispusessem a negociar com seriedade - o que não aconteceu em nenhum momento - antes que a Otan recorresse às armas.
A Otan ganhou por um lado, mas perdeu por outro. Sua estratégia de vitória rápida pelo ar foi um dos maiores fracassos militares dos últimos tempos. Acharam que logo os sérvios estariam se rendendo e derrubando Milosevic. Os aliados subestimaram Milosevic e a capacidade de resistência de um povo. E os países-membros da Otan terão de arcar, agora, com o ônus do retorno dos refugiados e com a reconstrução de Kosovo.
Os europeus ficarão com a maior parte da conta. Com a cara-de-pau que o caracteriza e preocupado sobretudo com seu público interno, que nem sabe onde fica Kosovo, Bill Clinton já disse que os Estados Unidos não arcarão com os custos da reconstrução, que isso é um problema para os europeus. Como se dissesse: ‘‘Meu negócio é destruir, jogar bombas e matar, o resto não é comigo.’’ E esse resto vem agora.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília

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