Guerra dos mundos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de novembro de 2001
Fernando José Dias da Silva 
O ''Choque das Civilizações'' contra o ''Fim da História''. A briga continua. Mais condimentada e com mais interpretações. Quando fica mais distante o ataque nos EUA e quando fatos novos acontecem todos os dias na caçada a Bin Laden e seu grupo tenebroso.
O nosso mulá de plantão, Fernando Henrique, disse na Assembléia Nacional da França, opor-se tenazmente ao discurso de que existe um choque de civilizações: ''De um lado, o Ocidente judaico-cristão; do outro, a civilização muçulmana. Heterogêneas como são as duas tradições, a barbárie e o autoritarismo, infelizmente brotaram em ambas, mas também mereceram o repúdio dos segmentos mais lúcidos de cada uma delas''.
Foi bem. Aliás, tem gente que diz que FHC é como o Nelson Ned, tremenda voz romântica. Faz mais sucesso lá fora. Mas o problema não é esse. É que ''choque de civilizações'' pautou o discurso norte-americano no primeiro momento, depois da derrubada das torres. Aquela história de quem não está conosco, está contra nós; a luta do ''bem contra o mal''. Mas FHC foi bem porque está junto com intelectuais como a do professor Edward Said, ensaísta e escritor palestino, professor da Universidade de Columbia, para quem o choque é de ignorância e não de civilizações.
Para alguns, inclusive as falcões do governo norte-americano, a luta contra o terrorismo legitima a teoria de outro professor, Samuel Huntington. É a teoria do ''Choque das Civilizações'', aparecida em 1993, segundo a qual depois do final da Guerra Fria a política mundial entraria em nova fase, onde o conflito não seria mais de ordem ideológica e nem econômica. Seria do tipo cultural, em que o principal enfrentamento poderia se dar entre o Ocidente e o Islã.
Para Said, Huntington não levou em conta a dinâmica e a pluralidade de cada civilização. ''A grande contenda entre a maioria das culturas tem a ver com a definição ou interpretação de cada cultura, ou para a pouco atrativa possibilidade de que se necessita uma grande dose de demagogia e absoluta ignorância quando se presume falar por toda uma religião ou civilização''.
Para o professor de Columbia, ''ao largo dos séculos a história conteve guerras religiosas e conquistas imperiais mas também foi uma história de intercâmbio, aportes e coisas compartilhadas''. Said escreve com todas as letras que Huntington conseguiu apenas confundir-se e demonstrar que ''era um escritor torpe e um pensador sem lucidez''.
O paradigma do Ocidente versus o resto (reformulação da oposição durante a Guerra Fria) permaneceu intacto e é o que se segue discutindo, de maneira tácita, desde os acontecimento de setembro, lembra Said. É a maldita mania de simplificar coisas que por si só são complicadas, como se um bando de militantes transtornados representassem todo o mundo muçulmano.
O contraponto ao ''Choque das Civilizações'' é o não menos polêmico ''Fim da História'', de Francis Fukuyama, catedrático da Faculdade John Hopkins. No seu livro, ele diz que com o fim da Guerra Fria estávamos chegando ao fim da história porque não haveria mais oposição às democracias liberais e aos mercados internacionalizados. Seria a vitória pura e simples do capitalismo porque não haveria força capaz para contestá-lo. Com a tragédia de setembro muita gente começou a duvidar da teoria de Fukuyama. Disseram que a história tinha voltado das férias, chegou-se até a declarar o fim do fim da história.
O defensor de Fukuyama é o próprio Fukuyama que num artigo publicado em vários jornais do mundo afirma que sua tese continua firme e forte. Ele explica que o processo de evolução parece estar levando a regiões, cada vez mais amplas da terra, a modernidade. E que se olhássemos além da democracia e dos mercados liberais, não haveria nada que podéssemos aspirar ou avançar; daí o final da história.
O professor arremata dizendo: ''...Seguimos estando no fim da história porque só há um sistema de Estado que continuará dominando a política mundial, o do Ocidente liberal e democrático. Isto não supõe um mundo livre de conflitos, nem do desaparecimento da cultura como traço distintivo das sociedades (...) O choque se compõe de uma série de ações de retaguarda provenientes de sociedades cuja existência tradicional está ameaçada pela modernização. A força dessa reação reflete a seriedade da ameaça. Mas o tempo e os recursos estão ao lado da modernidade (...)''
Mas e se essa modernidade estiver doente? Se a natureza do mal for a mesma para todos, que é a de reduzir o ser humano ao seu estado de utilidade, de serviço, de instrumento, de coisa, transformado em máquina de matar ou de obter lucros?
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


