Não importa se são 10, 200, 600 ou mais de um bilhão. Para essa turma, dinheiro não serve para acumular. Eles não são avarentos. Dinheiro serve para rolar, para fazer coisas. Dinheiro serve para ser usado em campanha política, por exemplo, ou, melhor ainda, serve como grande bandeira para quem não se beneficiou da última rapinagem. Isso mesmo, o dinheiro serve até para quem não tirou vantagem nenhuma dele. Aí o dinheiro adota outro valor, se transforma no capital do político para espinafrar o adversário.
Está mais claro do que nunca que em primeiro momento o principal objetivo da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Títulos Públicos não era chegar a nenhuma verdade. Era detonar desafetos.
No início foi o governador de Santa Catarina, Paulo Afonso Vieira, o principal alvo. Se ele tem culpa ou não no cartório é outra história. Mas os senadores Vilson Kleinubing, que é do PFL e Espiridião Amin, que é do PPB, se transformaram em cavaleiros andantes para lutar contra um governador, que segundo eles, acumula todos os vícios e todos os erros que podem se acumular em um político. Só para lembrar Paulo Afonso é do PMDB e poderia provocar problemas de sobrevivência no cenário catarinense para Kleinubing e Amin.
Nessa etapa da história da CPI dos Títulos ou dos precatórios, as brigas ainda estavam restritas às questões domésticas. O governo de Pernambuco foi execrado com exceção do governador Miguel Arraes, que ainda goza de algum prestígio na praça. O governo de Alagoas também foi espicaçado, mas aí também não foi necessário muito esforço. O governador Divaldo Suruagy não é o que se pode chamar atualmente de bom administrador.
As coisas iam nesse caminho quando surgiu a figura de Wagner Batista Ramos, coordenador da Dívida Pública do Município de São Paulo.
O pai ou a mãe de todos os possíveis desmandos com os precatórios. Foi aí que a coisa se tornou nacional. Ficou séria e não se sabe qual será seu desfecho.
Wagner Ramos, apesar dos desmentidos, era, até o escândalo, um homem de total confiança de Celso Pitta. Recebia ordens diretas de Pitta. E como se sabe Celso Pitta, por sua vez, era o queridinho de Paulo Maluf, foi seu secretário de Finanças e colocado na prefeitura por única e exclusiva responsabilidade de Maluf e dos eleitores que ainda acreditam, que ainda tem fé.
O resultado é que Wagner Ramos, Celso Pitta e Paulo Maluf se deram as mãos através da CPI e não foram passear no bosque. Caíram num despenhadeiro político. E agora estão rolando embolados despenhadeiro abaixo. Depois que analisarem a topografia do terreno é que se poderá saber quais serão as chances de sobrevida de Pitta e de Maluf. Por enquanto eles continuam rolando. Podem, inclusive, tentar interromper a queda se agarrando em qualquer coisa, um tronco, alguma ramagem. Ninguém sabe.
O que se sabe é que uma pequena multidão já está se formando no final do despenhadeiro aguardando o desfecho da queda, para serem os primeiros a fazer um levantamento das condições dos corpos.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo.

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