Guerra de Canudos completa 100 anos
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quinta-feira, 21 de novembro de 1996
Jotabê Medeiros, 
SÃO PAULO - Há exatos cem anos, na cidade de Uauá, no sertão baiano, começava a maior guerra civil do interior brasileiro, que deixou mais de dez mil mortos em um ano de combates e quatro grandes batalhas: a Guerra de Canudos. Foi em 21 de novembro de 1896. Uma patrulha avançada do ainda incipiente Exército republicano brasileiro avançou demais em direção ao sertão, na tentativa de dar uma coça nos sertanejos partidários do líder religioso Antônio Conselheiro, a pedido de um juiz de Juazeiro (BA). Foram emboscados em Uauá na tarde do dia 21. Morreram mais sertanejos do que soldados: 70 jagunços e oito soldados.
A cidade de Uauá, que ainda existe, não guarda lembranças do acontecido e antecipou um ritual simbólico para marcar a data. Na segunda-feira, os moradores rezaram uma missa no local do combate e Oleone Coelho Fontes, autor do livro O Corta-Cabeças, sobre um dos personagens-chave da guerra (coronel Moreira César), fez uma palestra na igreja.
Na atual Canudos, a terceira cidade com esse nome, não haverá nenhuma comemoração. Tudo está reservado, segundo Tanicleide dos Santos, da Associação Canudense de Estudos e Pesquisas Antônio Conselheiro, para dezembro de 1997, data do fim do conflito. É a data que o povo prefere para as comemorações, porque é a data da morte do Conselheiro, explica.
Há outro dado irônico sobre Canudos: há três dias chove torrencialmente na região, após uma seca de mais de dois anos. A estiagem tinha feito submergir das águas barrentas do Açude de Cocorobó restos de construções da velha Belo Monte, a primeira Canudos (o nome Canudos era execrado por Antônio Conselheiro, mas de uso corrente entre os moradores). As ruínas que vieram à tona chegaram a virar atração turística, mas a natureza tem seus caprichos e tudo pode voltar para o fundo do lago de novo.
Belo Monte, ou Canudos, chegou a ser a segunda maior cidade da Bahia, com 5.200 casas e 25 mil habitantes, perdendo apenas para Salvador. Era uma cidade pobre e sem nenhum planejamento, erguida em poucos anos pelos seguidores do Conselheiro - em sua maioria pessoas flageladas, famintas, desesperançadas como são ainda hoje a maior parte dos sertanejos nordestinos. Mas a população se orgulhava de sua igreja, a maior de todo o sertão.
Envolvida por uma visão apocalíptica de final de século e movida pela crença de estar construindo um mundo melhor, mais justo e afinado com os desígnios de Deus, Canudos viveu momentos de grandeza durante alguns poucos anos, atraindo adeptos de todas as direções do Nordeste e alguns estados do norte. Derrubada pelo Exército, ressuscitou depois com apenas 60 casas e, no auge do regime militar, em 1968, foi engolida pelo açude.
Percorrer alguns dos trechos que foram palco da guerra é assustador, não só pela aridez da paisagem, diz o fotógrafo Viggiani. Pela sensação de abandono e esquecimento no sertão, é como se as condições que propiciaram a luta armada permanecessem lá. Ele fotografou também lugares emblemáticos da saga sertaneja, como a subida do Morro de Santa Cruz, onde Gláuber Rocha filmou cena de Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Além disso, Viggiani procurou remanescentes da guerra e personagens da terra, como Josefa Severiana de Jesus, que tinha três dias de vida quando o Arraial de Canudos caiu - ela é talvez a última sobrevivente. Mas, doente, está com a memória comprometida.
O agricultor João Régis, de 89 anos, é uma espécie de porteiro do sertão, o melhor guia para quem deseja conhecer a geografia do conflito. Seus pais e avós escaparam da destruição de Canudos e ele guarda, com desenvoltura e precisão, a crônica narrativa da guerra.
Passados cem anos, Canudos ainda desperta controvérsia. Parentes do coronel Moreira César, por exemplo, que passou para a história como um dos grandes vilões do conflito, dizem que o escritor Euclides da Cunha (autor de Os Sertões) carregou nas tintas sobre o militar, que fôra seu antagonista em quartéis. As motivações, o número exato de vítimas, a gênese do Conselheiro: todas as dúvidas ardem mais forte um século depois.


