Durante boa parte do século XX, as grandes disputas políticas estavam organizadas em torno de projetos econômicos e sociais. De um lado, forças que defendiam maior igualdade, redistribuição de renda, direitos trabalhistas, proteção social e regulação estatal; de outro, aquelas que enfatizavam a importância da liberdade individual, da propriedade privada, da desregulamentação dos mercados e da limitação da intervenção estatal.

Nas últimas décadas, esses embates continuam, mas incorporaram novas pautas à disputa. Passou-se a viver a chamada guerra cultural, fundamentada no conflito de valores, costumes, identidades e formas de vida. A guerra cultural pode ser entendida como uma disputa política em torno daquilo que diferentes grupos consideram moralmente correto ou desejável. Compõem a agenda questões como família, religião, gênero, sexualidade, aborto, imigração, racismo, direitos das minorias, educação, meio ambiente, nacionalismo e liberdade de expressão. Confrontam-se posicionamentos como conservação versus transformação, tradição versus mudança, nacionalismo versus cosmopolitismo.

Grande parte das mudanças está relacionada às transformações sociais em ritmo acelerado que atravessaram o mundo nas últimas décadas. Globalização, urbanização, individualização, secularização, migrações, revolução tecnológica, transformação do trabalho e expansão dos direitos civis são fenômenos que alteraram profundamente as formas tradicionais de vida. Para muitos, essas mudanças representam libertação, autonomia e conquista de direitos. Para outros, significam perda de referências, enfraquecimento das tradições, insegurança econômica e cultural e perda de uma identidade coletiva.

As redes sociais aprofundaram a polarização entre grupos sociais, com algoritmos que tendem a privilegiar conteúdos capazes de provocar atenção e engajamento. Mensagens equilibradas e complexas frequentemente competem em desvantagem com conteúdos que provocam indignação, medo ou entusiasmo. O conflito passa a ser priorizado em relação ao diálogo, e a lacração é preferível ao entendimento.

As pessoas tendem a consumir informações que confirmam suas próprias convicções, formando-se “bolhas” que reforçam crenças e preconceitos. Na cruzada do “bem contra o mal”, parece valer quase tudo: mentiras, exageros ou teorias da conspiração; vencer parece mais importante do que buscar a verdade. A mobilização é baseada no medo e na hostilidade, e toda divergência é interpretada como uma severa ameaça moral.

Nesse contexto, lideranças populistas apresentam a sociedade como uma oposição entre patriotas e o grupo inimigo identificado como responsável por todos os problemas nacionais. A complexidade dos conflitos sociais é substituída por explicações simplórias, nas quais existe um "nós" virtuoso e um "eles" corrupto. Domina uma forte carga emocional que bloqueia o senso crítico, dificulta o diálogo e eventuais possibilidades de conciliação.

Nesse contexto, muitos se veem seduzidos pelo autoritarismo, numa ideia de domínio da “verdade”. Valem-se de respostas fáceis para problemas complexos, desacreditam a ciência e as evidências, como se se tratasse de mera opinião.

Nessa perspectiva, a democracia torna-se incômoda, pois pressupõe diálogo, convivência com as diferenças próprias de uma sociedade plural. É justamente nesse ponto que a contribuição de Habermas se torna relevante: o diálogo profícuo exige disposição para ouvir o outro, apresentar argumentos que possam ser compreendidos e criticados, justificar racionalmente as próprias posições e buscar consensos construídos pelo melhor argumento, e não pela força, imposição ou manipulação. Isso exige esforço e alteridade, indispensáveis para não transformar o outro em inimigo a ser eliminado.

Luís Miguel Luzio dos Santos, professor de Socioeconomia e Ética na Universidade Estadual de Londrina

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