Selecionados durante décadas por nós mesmos, os micro-organismos resistentes aos mais potentes antibióticos deixaram o anonimato proporcionado pela invisibilidade e ganharam as manchetes do país por serem, sim, uma ameaça real aos humanos. Não que fossem totalmente desconhecidos. Mas só agora - após a Klebsiella pneumoniae Carbapenemase (KPC) se instalar no seio do poder, Brasília (DF), onde em poucos dias matou ao menos 18 pessoas e infectou quase duas centenas em diversos hospitais -, as superbactérias passaram a ser vistas, temidas e combatidas.

As autoridades de saúde anunciaram medidas para minimizar a culpa pelos anos que ignoraram o risco. Contra o comércio indiscriminado de antibióticos - praticado ainda hoje sem qualquer constrangimento -, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) promete definir regras mais rigorosas. Os médicos deverão ser orientados para prescrever o antibiótico correto e a dosagem exata para cada paciente, coisa que nem sempre acontece atualmente.

Só agora também deverá ser exigido que os hospitais investiguem e notifiquem os casos de KPC. Hoje, a falta de dados é generalizada. Desinformação que faz aumentar os riscos de contágio. Perigosas sobretudo no ambiente hospitalar, as superbactérias são controladas com uma medida simples: a lavagem das mãos com água e sabão sempre que atender um paciente ou antes de atender outro. Porém, apenas três em cada dez profissionais de saúde adotam, com eficiência, esta regra, como revela a representante do Conselho Regional de Farmácia do Paraná, Izelândia Veroneze, em reportagem de hoje da FOLHA. Isso somado à rotina de superlotação de todos os principais hospitais do país maximiza ainda mais os riscos.

E se engana quem pensa que os problemas acabam por aí. Para conter o avanço da KPC e outros micro-organismos resistentes e tratar dos pacientes contaminados, os hospitais vão precisar de cada vez mais recursos. A luta contra as superbactérias exige, entre outras coisas, isolamento de áreas isoladas, medicamentos caríssimos e pessoal treinado. Ou seja, o dinheiro para saúde, que já é insuficiente, pode ser menos ainda.

Diante de tantos desafios, só nos resta reforçar o alerta feito pela infectologista de Londrina, Joseani Pascual Garcia: ''Podemos ser destruídos por estes micro-organismos''.

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