Guerra contra a democracia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de setembro de 2001
Ulisses Tasqueti 
Um dos fundamentos da democracia é a pluralidade de idéias, pressuposto da liberdade de expressão. É a liberdade de expressão que garante que o povo manifeste seu descontentamento com atitudes dos governantes por ele eleitos. A democracia, portanto, é um direito que é exercido não somente quando se vai às urnas em período de eleição, mas a cada momento que esse direito se vê ameaçado.
A privatização da Copel, empresa-modelo no setor de base no País, recebeu severas críticas por parte da população em geral, e um apaixonado embate de idéias foi travado. No plano teórico, a ala contra a privatização venceu fácil. No plano fático, todavia, a população foi traída por aqueles que levou ao poder, e a ação popular contra a venda da Copel foi indeferida.
Todavia é de se espantar o ódio que o governo vigente em nosso Estado sente em relação a manifestações contrárias às suas atitudes. Não sejamos hipócritas; as manifestações ocorridas em Curitiba não foram pacíficas, e foram perpetrados atos característicos de vandalismo durante uma delas. Mas nada justifica a reação flagrantemente desproporcional por parte do governo, que, através da Polícia Militar, oprimiu violentamente as manifestações, fato que foi noticiado por todos os meios de comunicação.
Como se não bastasse ter colegas surrados covardemente por policiais que sequer estavam identificados, a mando de um governo totalitário que deflagrou essa opressão violenta indiscriminada, acompanhei atônito a mais nova propaganda do governo do Estado.
No anúncio da TV, homens com expressões faciais beirando a loucura eufórica, articulam uma manifestação contra a privatização da Copel, entremeada por gritos como ''a luta continua, companheiro'', até ''vamos quebrar tudo'', propondo uma caracterização de que grupos de esquerda são vândalos lunáticos, que arrumam qualquer desculpa para organizar uma revolta, até mesmo contra algo que ''vai beneficiar a todos''. O absurdo culmina com um dos articuladores ligando para um estudante que, recebendo a ligação em um celular, conclama os colegas de sala: ''Vamos matar aula!''
O informe publicitário - pago pelo contribuinte, diga-se de passagem - deveria esclarecer e prestar contas à população dos atos do governo. Esse instrumento foi utilizado de maneira descarada para deformar as manifestações populares, nisso incluindo não somente a relativa à privatização da Copel, mas também o movimento de greve dos servidores do Estado, que já está se deflagrando, e reivindica, entre outras prerrogativas, o reajuste salarial que Lerner, nos dois últimos mandatos, não se dignou a conceder.
É revoltante. É absolutamente revoltante ver colegas (alguns até bem próximos a mim), serem espancados como foram, um deles tendo sido levado desacordado para o hospital, após o ataque concomitante de quatro policiais sobre ele. A idéia do retorno de um regime opressor, nos moldes do regime militar, é espantosa, e, cada vez mais se faz concreta. Absurdo maior que todos é ver o governador escarnecer da forma como o faz através de um informe publicitário pago por nós, contribuintes!
Os estudantes participaram, participam e sempre participarão de movimentos reivindicatórios, para lutar pela democracia, pelo Estado de Direito, pelo interesse coletivo, por condições dignas e igualitárias para todos, por uma reforma no ensino em todos os níveis, por uma universidade pública, gratuita, de qualidade, dotada de autonomia e exercente de sua inalienável função social. E fica um aviso, quase um ultimato: os estudantes lutam e sempre lutarão por ideais, e não como massa de manobra como acredita e faz acreditar o governador.
Parafraseando o Prêmio Pulitzer John Steinbeck, em sua obra-prima ''As Vinhas da Ira'', tema-se o momento em que não mais se queira lutar e morrer por um ideal, pois essa é a qualidade-base da humanidade, é o que a distingue entre tudo no universo.
- ULISSES TASQUETI é universitário em Londrina


