Guerra aos fumaceiros
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de março de 2003
Walmor Macarini 
Enquanto a guerra explode no Iraque, semeando o terror e levantando enormes rolos de fumaça intoxicante, em Londrina (e assim nas demais cidades) as pessoas imitam os predadores guerreiros e promovem sua fumacinha de cada dia, ateando fogo na palhada seca dos terrenos baldios, queimando lixo e outros detritos nos quintais e nas ruas, e, se isso não bastasse, restaurantes e academias de ginástica acionam com lenha seus fogões e caldeiras térmicas, inundando com a fumaceira poluente toda a vizinhança. Essa substância química penetra nos pulmões, gera males pulmonares, ardência nos olhos e muita revolta pessoal. Já nem se fala das queimadas do campo, que além do mais prejudicam a fertilidade do solo.
Parece que há uma atração irresistível por acender um fósforo, atear fogo em tudo o que possa ser queimado e ficar assistindo ao espetáculo das chamas crepitando e a fumaça subindo. Os amontoadores de entulhos e os varredores de folhas secas também apreciam fazer o seu foguinho. É um divertimento para eles. As crianças assistem e aprendem.
No caso dos restaurantes e academias, o paradoxo é que servem o alimento de preservação da vida e ministram ensinamentos de saúde pela prática de exercícios físicos, mas semeiam doenças respiratórias, irritação dos olhos e da garganta, dores de cabeça e mal-estar geral com a arma química representada pela fumaça. A Saúde Pública tem alertado para a nocividade do fumo originado da queima de lenha.
Deveria haver uma lei municipal que punisse esses ''bushaddams'' incendiários, assim como se pune quem derruba uma árvore ou comete um crime. Municiados dessa instrumentação legal, os fiscais entrariam em ação ante denúncias da população, e os bombeiros seriam mobilizados para apagar o fogo.
A lei também deveria proibir os fogões, fornos e caldeiras a lenha, não só porque poluem mas também porque consomem madeira. Esses estabelecimentos chegam a queimar lenha úmida e verde e, dessa forma, produzem mais fumaça. Para os restaurantes que adotam o sistema virou até fator de marketing anunciar que a comida é feita com fogão a lenha. O mesmo que fazem os comandantes da guerra ao exaltar a eficiência dos combatentes e das armas quando os alvos são atingidos com precisão, não importando as mortes e a destruição que causem.
Esses escritos vêm a propósito de uma nota de ontem, deste jornal, em que os bombeiros fazem um apelo à população para que não ateie fogo nos terrenos baldios e nos lixos. Faltou conclamar as indústrias fumaceiras, os queimadores de detritos ao ar livre, os restaurantes, as academias; faltou conclamar os poderes públicos para que façam a sua parte, com leis específicas, já que contam com o respaldo da lei maior de proteção ao meio-ambiente e à saúde das pessoas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


