GUERRA AO TRÁFICO 'Repressão não resolve'
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de dezembro de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Desde 21 de novembro, o Rio de Janeiro está em clima de guerra A onda de violência teve início com arrastõres e bandidos incendiando veículos O saldo trágico inclui cerca de 40 mortos após o início dos combates entre as Forças de Segurança e os traficantes
Diante do caos, o governador Sérgio Cabral (PMDB) buscou apoio das Forças Armadas, que trabalharam em conjunto com policiais militares e civis e integrantes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) ''A resposta do governo foi positiva, mas não é possível vencer essa guerra somente com repressão'', afirma Alessandro Visacro, autor do livro ''Guerra irregular - Terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história'', publicado pela Editora Contexto
Ele argumenta que a crise de segurança chegou a essa situação alarmante por conta da ausência de políticas públicas e das características demográficas do Rio E adverte que o governo deve deixar de tratar a violência como mera questão de segurança pública
Como o senhor avalia a ação do governo para conter os ataques de traficantes no Rio de Janeiro?
Primeiramente, é importante explicar que os ataques são reações de facções armadas ligadas ao tráfico de drogas, que decorrem da perda territorial Isso acontece, por um lado, devido à política de segurança pública do Estado (por meio da implantação de Unidades de Polícia Pacificador - UPPs - nas comunidades) E, por outro lado, em decorrência da expansão das milícias Essa reação das facções já era previsível, pois elas estão perdendo a base de apoio popular e, por isso, recorrem a técnicas terroristas como forma de intimidação
Diante dos ataques, a resposta do governo foi positiva O crime organizado cometeu um erro de cálculo, que gerou uma reprovação muito grande da opinião pública Isso deu uma força e uma liberdade de ação muito grande para as forças legais reagirem
É possível vencer essa guerra somente com repressão?
Não, de forma alguma Os órgãos de segurança pública do Rio de Janeiro em 2008 foram responsáveis por 1 137 mortes, resultantes de resistência Isso significa que naquele ano 15% dos homicídios foram decorrentes da repressão policial Esse índice tem se repetido ao longo dos anos e mostra que se matar traficante resolvesse alguma coisa, o problema da violência já não existiria mais A sociedade e o Estado brasileiros tratam a questão da violência urbana como mera questão de segurança pública Mas o problema vai muito além e exige uma política de Estado
O Brasil é o segundo maior produtor de cocaína e 70% da maconha consumida é importada Nenhuma secretaria de segurança pública tem condição de atuar sobre essa face do problema É preciso haver uma política para abranger todos os campos do poder nacional e todas as agências do Estado
Em que consiste a política de Estado que o senhor defende?
Não somente as polícias que devem agir contra a violência É preciso unir forças com a aduana, a inteligência financeira, as Forças Armadas, o Ministério das Relações Exteriores, dentre outras agências Deve-se buscar alternativas para reduzir a oferta de drogas, combater dívidas históricas, distribuir melhor a renda, tirar as armas dos traficantes É um problema complexo e multifacetado Por isso, as ações devem ser conjuntas e paralelas
Por que a situação chegou a esse ponto no Rio?
A característica demográfica do Rio de Janeiro é um problema A ausência de políticas públicas também colaborou para chegar a esse ponto caótico Dados da última década mostram que o índice de crescimento da população no Rio de Janeiro é de 0,38%, enquanto que nas favelas chega a 2,4% Em 1998, 16% da população carioca viviam em favelas e em 2009 o número era de 18,7% É um crescimento grande No Rio as favelas ficam nas principais zonas da cidade A Rocinha está debruçada no São Conrado Pobreza por si só não gera violência O problema é o contraste social
Recorrer às Forças Armadas foi uma decisão acertada?
O melhor argumento são os bons resultados e até agora eles foram positivos Empregar as Forças Armadas é uma alternativa que precisa estar iserida em uma política de Estado Recorrer às Forças Armadas foi quase que uma medida paliativa
O Rio tem condições de solucionar essa crise a tempo de garantir segurança aos visitantes durante a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016?
Esses grandes eventos estão chamando a atenção, mas eu acredito que eles consistem no problema menor O que mais interessa é resolver um problema agudo, que vem se tornando cada vez mais intenso com o passar das décadas Não vai ser nos próximos 15 dias que vamos resolver o problema É algo que pode ser resolvido a longo prazo Não podemos apenas limitar os índices de violência a patamares aceitáveis Isso significa empurrar a poeira para debaixo do tapete
Tratando-se dos grandes eventos que vão acontecer no Brasil, existe uma preocupação com a segurança, mas o Estado tem aparato suficiente para garantir isso Não é interessante para o tráfico ter explosões de violência nesses períodos A preocupação maior tem que ser a longo prazo
Quais as perspectivas para o futuro dos morros cariocas? O fim das ocupações não pode significar a ascenção de uma nova geração de traficantes ou mesmo de milicianos ao poder?
Um dos maiores desafios é prever o dia de amanhã Limitar-se a erradicar as facções criminosas pode gerar uma fragmentação da atividade, tornando mais difícil combater o problema As milícias são um efeito colateral indesejado do fenômeno Volto a dizer: só vamos obter sucesso se o conceito de segurança focado na Secretaria de Segurança Pública passar a ser uma política de Estado


