GUERRA AO TABACO - Sucesso da lei antifumo depende de fiscalização rígida
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sexta-feira, 08 de janeiro de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
O alerta é antigo: o cigarro é bastante prejudicial à saúde. No entanto, ainda assim, cerca de 24,6 milhões de brasileiros acima de 15 anos fumam, o que corresponde a 17,2% da população nessa faixa etária - segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde.
Anualmente morrem 5 milhões de vítimas de doenças provocadas pelo fumo em todo o mundo, conforme aponta a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, são 200 mil mortes por ano.
Com o intuito de proteger as pessoas dos males causados pelo tabagismo, a lei antifumo (nº 10.715/09) passou a vigorar em diversos municípios brasileiros. Em Londrina, está em vigor desde novembro do ano passado. A nova legislação estabelece que é proibido o uso de cigarros, cachimbos, cigarrilhas e charutos em recintos fechados coletivos.
Um estudo realizado pelo Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas de São Paulo revela que a lei é benéfica não apenas para quem não fuma, mas para os próprios fumantes, uma vez que não ficam mais expostos à fumaça em locais fechados. Foram realizadas medições de monóxido de carbono em mais de 700 estabelecimentos da capital paulista em dois momentos: antes e depois de a lei entrar em vigor.
Em entrevista à FOLHA, o pneumologista Denison Noronha Freire discute os benefícios da nova lei e afirma: ''O pontapé inicial foi dado. Agora é preciso manter a vigilância.'' Segundo ele, proibir o cigarro em ambientes fechados ajuda a conscientizar as pessoas de que fumar realmente faz muito mal à saúde. ''O fumo é o grande causador das doenças do século XX e XXI'', sentencia.
A lei antifumo realmente ajuda a proteger a saúde dos fumantes? De que forma?
O fumo é o grande causador das doenças do século XX e XXI. A principal causa do câncer de pulmão é o cigarro. Existe uma série de doenças relacionadas ao fumo. Evidentemente que se a pessoa deixar de fumar ela vai ter uma melhor qualidade de vida e vai correr um risco menor de desenvolver câncer de pulmão.
O ideal seria que as pessoas deixassem de fumar, mas o fato de terem proibido o cigarro em ambientes fechados já ajuda a conscientizar que realmente fumar faz mal. Essa lei mostra que alguma coisa está sendo feita pela saúde das pessoas, que vão diminuir o número de cigarros por dia. Quem não fuma também será beneficiado.
Qual é o grau de prejuízo do fumante passivo? Pode se igualar ao de quem fuma somente de vez em quando?
O prejuízo é muito grande. O fumante passivo está inalando a fumaça da mesma forma que o ativo e pode desenvolver todas as doenças de quem fuma: câncer de pulmão, de bexiga e doenças cardiovasculares. A partir do momento que o fumante passivo inala a fumaça do cigarro ele já está sendo prejudicado. No entanto, a pessoa é prejudicada com as doenças crônicas a longo prazo. Isso depende da sensibilidade de cada indivíduo.
Como o monóxido de carbono e as demais substâncias presentes no cigarro agem no organismo humano?
Elas competem com o oxigênio. Diminui o aporte de oxigênio no sangue, o que leva a todas as doenças cardiovasculares. Uma doença muito comum causada pelo cigarro é o enfisema pulmonar. O cigarro é o causador do DPOC, que é a doença pulmonar obstrutiva crônica. É uma associação do enfisema e da bronquite crônica. É importante não confundir com a bronquite asmática, que está relacionada à alergia respiratória e a pessoa adquire desde a infância.
Por quanto tempo as substâncias do cigarro permanecem no ambiente fechado podendo prejudicar quem passa pelo local?
Isso é muito relativo. Depende do tamanho e da ventilação do ambiente, além do número de pessoas que estão no local. Em um ambiente com ar-condicionado a concentração das substâncias é muito alta. Mesmo que a pessoa termine de fumar e saia do local, a substância permanece por um tempo porque o monóxido de carbono é leve. Isso prejudica quem passa por ali. Quanto mais fechado o ambiente pior é. Por que no inverno as doenças respiratórias são mais frequentes? Pelo fato de as pessoas ficarem em ambientes mais fechados, com pouca ventilação.
A poluição advinda da fumaça dos carros é tão perigosa quanto a do cigarro?
Sim. Hoje em dia atendo várias pessoas idosas, especialmente mulheres, que nunca fumaram e têm enfisema pulmonar. É por causa do fogão a lenha. Tudo que emana fumaça é bastante prejudicial à saúde. Inclusive a fumaça dos carros.
O arguile, espécie de cachimbo, que vem sendo bastante utilizado pelos jovens, é tão prejudicial quanto o cigarro?
Sim. Pode ser até mais prejudicial porque o arguile facilita a adição de outros tipos de drogas. Mas se não houver nenhuma mistura ele é tão prejudicial quanto o cigarro e vicia.
Qual a sua avaliação sobre a lei antifumo? O senhor acha que ela deveria ser mais severa?
Eu acho que está na medida. A nossa cultura é de querer burlar as leis. A lei tem quer severa, mas não pode extrapolar. O principal é que ela seja efeitivamente aplicada. Além de burlar a lei, muitas vezes as pessoas relaxam no momento de aplicá-la. Tem que haver fiscalização. Até hoje os restaurantes em São Paulo estão sendo multados em razão das pessoas que fumam nos ambientes fechados.
Não acho que a lei vai surtir efeito imediatamente em Londrina, mas é uma questão de mudança de comportamento. Isso demora. Mas eu acho que o pontapé inicial foi dado. Agora é preciso manter a vigilância. Essa lei deve ser educativa, mostrando que nenhum indivíduo deve fumar. Nem em casa nem na rua.
Quando eu comecei a lecionar no HU (Hospital Universitário) no final da década de 1970 e no início dos anos 80 os alunos e professores fumavam na sala de aula. Todo mundo fumava em qualquer lugar. No ônibus só não podia fumar charuto e cachimbo. As pessoas fumavam em ônibus fechados. Já tivemos uma evolução muito grande.


