GUERRA À DESNUTRIÇÃO No Paraná, 2 milhões passam fome
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domingo, 24 de novembro de 2002
Renê Muller<br> Reportagem Local 
Desafio para os novos governantes, o combate à fome e a assistência aos famintos que vivem no Paraná é urgente. De acordo com o projeto Fome Zero: Uma Proposta de Política de Segurança Alimentar, plataforma na qual já trabalha a equipe de transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, o Estado tem dois milhões de pessoas que sobrevivem abaixo da linha da pobreza. São 21% da população total paranaense, registrada no Censo de 2000. Desses, 540 mil estão na área rural.
Os números foram aferidos para a elaboração do projeto. Entre os dois milhões, estão pessoas como o embalador desempregado José Donizete dos Reis, 46 anos. Morando na Invasão Refúgio (zona sul de Londrina), Reis conta com uma cesta básica para alimentar a família. ''Às vezes, aperta. Peço alguma coisa no mercado, mas não sei nem como vou pagar'', lamenta. José cultiva uma pequena horta no quintal, que garante alguma comida extra. E continua preocupado com o dinheiro, que não entra. ''Até os bicos estão difíceis de conseguir'', afirma.
Reis faz parte de um novo contingente de pessoas à margem da miséria. Veio de São Paulo, e chegou há pouco tempo na cidade. Colabora para aumentar as estatísticas da pobreza no município, e a parcela de miseráveis dentro da população total Londrinense. Serve também de munição para quem acredita que os números da fome paranaense são ainda maiores.
''Dizer que existem dois milhões é bondade '', diz o sociológo João Batista Filho. Ele coordenou uma pesquisa de campo intitulada ''Resgate da Cidadania: uma questão de direito'', realizada pelo curso de Direito da Universidade do Norte Paranaense (Unopar). A pesquisa, desenvolvida há dois anos, destaca um dado surpreendente: pelo menos 161 mil pessoas vivem em situação de miséria em Londrina.
Batista Filho diz que as últimas sondagens do trabalho de aferição apontam para um número significativamente maior. ''Hoje, já são 185 mil pessoas abaixo da linha de pobreza, sem medo de errar'', diz o professor. Ele acredita que o número deve chegar a 200 mil. ''A cada dia chegam novas famílias. A necessidade desses retirantes não é apenas falta de nutrientes. É barriga vazia, fome pra valer'', acrescenta Batista Filho. Essa nova leva está estabelecida em diversos pontos da cidade, muitas vezes longe da vista do resto da população.


