O agrônomo Mauro Eduardo Del Grossi, doutor em Economia e pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) em Londrina, tem papel importante dentro do programa Fome Zero. Ele foi um dos colaboradores do projeto, apresentado pelo PT através da Organização Não Governamental Instituto Cidadania no ano passado, após vários seminários de elaboração.
A ligação com o projeto também se dá pelo trabalho desenvolvido junto do economista José Graziano da Silva, professor do Núcleo de Economia a Agrária da Universidade de Campinas (Unicamp). Coordenador do Fome Zero e membro do governo de transição de Lula, Graziano assina junto com Grossi a obra ''Novo Rural uma Abordagem Ilustrada'', lançada em setembro, e que mostra a transformação do meio rural paranaense e brasileiro nos últimos anos.
Folha Como o senhor participou da elaboração do projeto Fome Zero?
Mauro Del Grossi Fui um dos colaboradores do projeto. Fiquei em especial com a aferição da pobreza, a pesquisa de dados que mostrassem a dimensão real da pobreza no País.
Folha E dá para aferir a pobreza no Brasil?
Grossi Sim. Primeiramente, nós analisamos várias linhas de pobreza utilizadas em todo o mundo. Adotamos a do Banco Mundial, de um dólar ao dia por pessoa. Ou seja, um pessoa que mora sozinha, e ganha até US$ 30,00 por mês, será incluída entre a população pobre do país. Um casal que ganha até US$ 60,00, também. Fiz mais algumas modificações, utilizando dentro da aferição o conceito de renda disponível. Pego a renda da pessoa, desconto aluguel, prestações e outros tipo de gastos fixos. Se sobrar menos de US$ 30,00, a pessoa é incluída na faixa de pobreza.
Folha Então, como está a situação?
Grossi Em 1999, tínhamos 9,3 milhões de famílias pobres. Ano passado, subiu para 10 milhões. São 46 milhões de pessoas. O governo FHC trabalha com métodos diferentes de aferição, e defende que existem 17 milhões de brasileiros em situação de miséria. Outras instituições, como a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a Comissão Ecônomica para a América Latina (Cepal), que é da ONU, aferem números semelhantes aos nossos, de cerca de 50 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza no País.
Folha E como se dividem essas famílias? Onde elas estão?
Grossi Das 10 milhões de famílias, 2,4 milhões moram em regiões metropolitanas, 5,2 milhões em áreas urbanas de municípios pequenos ou médios e outras 2,4 milhões em áreas rurais.
Folha Como se explica o fato de que tão grande número de pessoas que vivem no campo, em meio à terra e ao cultivo, não tenham comida na mesa?
Grossi O problema é que a pessoa trabalha na terra, mas não tem acesso a ela. Ela trabalha na colheita, na fazenda, mas ganha pouco. Tem dificuldade para ter comida sempre à mesa. Comer carne mesmo, não pode comer todo o dia.
Folha Mas pobreza rural foi a que mais cresceu nos últimos anos?
Grossi Não, a pobreza, na maior parte, não é rural. A pobreza urbana cresceu mais nos anos 90, consequência do desemprego e da recessão.
Folha Por regiões, como estão distribuídos os pobres brasileiros?
Grossi O Nordeste é a região que abriga quase metade dessa população, com 47,6%. O Sudeste tem 29,4%, o Sul 9,7%, a região Norte tem 6,6% e o Centro-Oeste fica com 6,2%.
Folha - Como está o Paraná dentro do quadro da pobreza?
Grossi Existem quase dois milhões de paranaenses abaixo da linha de pobreza. Destes, 420 mil estão na região metropolitana de Curitiba, um milhão em outras áreas urbanas e 540 mil na área rural.
Folha O grande número de pobres em áreas urbanas tem a colaboração do êxodo rural?
Grossi Sim, no Paraná o exodo rural continua, ao contrário do que ocorre no País, onde tem saldo nulo. Aqui, está bem associado à crise da agricultura familiar pós Plano Real, à queda do preço dos alimentos. O Paraná rural perdeu algo em torno de 200 mil pessoas ao longo dos anos 90. Já em São Paulo, a população rural voltou a crescer.
Folha Que tipo de auxílio está delineado no projeto Fome Zero?
Grossi São cinco linhas estruturais para o funcionamento do Fome Zero: geração de empregos, reforma agrária, previdência social, bolsa escola e incentivo à agricultura familiar. Se isso tudo engrenar, não há necessidade do governo utilizar um plano emergencial. Dentro das medidas emergenciais, existem iniciativas como os restaurantes populares, a R$ 1,00, que serviriam sobretudo à população urbana, e o cupom de alimentação, que eu pessoalmente defendo.
Folha Como funcionaria o cupom?
Grossi A pessoa que declarar que tem fome receberá um cartão magnético, ou vale. Este lhe dará direito a retirar produtos da cesta básica, devidamente cadastrados, nos mercados. A discussão que ainda existe entre os colaboradores do Fome Zero é se a pessoa poderia ir comprar o que quisesse, ou se seria melhor que as aquisições mediante o cupom fossem direcionadas. Defendo essa segunda linha, pois eu poderia direcionar o usuário para os produtos de fabricação regional, ou de agricultura familiar. Seria uma forma de fazer política agrícola junto com o combate à fome.
Folha Quem subsidiaria esse combate à fome?
Grossi Seria subsidiado pelo orçamento da União e por impostos. A estimativa é que seriam gastos em uma emergência R$ 20 bilhões. Esse cupom teria um prazo, pelo menos seis meses, e depois cada caso teria que ser reavaliado.
Folha É garantido que tudo isso saia do papel e vire prática?
Grossi O Fome Zero é uma proposta aberta, que continua sendo discutida. Agora, cabe à equipe de transição do governo definir o que será praticado de imediato. Pode ser que o cupom não seja viável em um primeiro momento. O Graziano é o encarregado da questão do Fome Zero dentro da equipe de transição.
Folha Como garantir alimentação a todos, mesmo às pessoas pobres que não podem ser enquadradas em nenhum dos programas assistenciais praticados pelo governo?
Grossi Entendemos que não há como acionar uma burocracia para resolver o problema do brasileiro que está faminto. A premissa básica é que, a partir da hora que a pessoa declara que tem fome, sua situação é um problema para o Estado resolver.

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