O guardião deveria ser o povo, a quem os homens públicos precisariam temer, mas o guardião que está semeando o pânico no círculo governamental é o sistema de escuta da Polícia Federal. Trata-se de um sofisticado equipamento - instalado no 5º andar do edifício-sede da PF, em Brasília - que é capaz de interceptar até 400 ligações telefônicas simultaneamente, e assim cruzar dados para desmantelar redes criminosas. O terror está plantado para parlamentares, ministros, outros chefes de repartições, empresários, lobistas, policiais, juízes, destes que trilham pelo caminho dos desmandos.
A comunidade governamental sob suspeita (diz-se sob suspeita porque a lei não permite que se diga corrupta, a não ser com as devidas provas) está apavorada, porque o cerco vai se fechando. Embora não se feche completamente, porque quem é propenso, já deve estar articulando outros meios para seus contatos, sem utilizar esse delator que é o telefone. Triste para uma nação cujo sistema de repressão precisa instalar armadilhas para capturar não apenas os ladrões genéricos mas também ''gente da lei'', justamente a que devia ser guardiã das instituições. No lugar dos homens públicos serem os guardiões, eles é que estão monitorados por esse instrumento de vigilância, que não os deixa dormir em paz e está atrapalhando as suas negociatas.
A Ordem dos Advogados do Brasil, que tem exercido atuação política pela causa da moralidade, manifesta-se agora incomodada, declarando temer que o Brasil se transforme ''num Estado policial''. Os cidadãos não são contra isso se o fim é prender bandidos. E esses tipos passaram a ser muitos encontráveis também nas elites governamentais e, desgraçadamente, no âmbito da instituição judicial. Há uma gigantesca rede de crime organizado, denominação que tem sido mais designada para os produdores e traficantes de drogas e os priofissionais do sequestro, do assalto e do roubo, mas que adicionou entre seus filiados pessoas graúdas da esfera oficial.
Lamentável que o Brasil, ao invés de sofisticar sistemas de bem administrar a vida pública, dentro dos princípios da probidade, tenha de implantar modernidades eletrônicas justamente para capturar tantos daqueles em quem o povo confiou e guindou ao poder, pelo voto, e os que foram nomeados para cargos onde deveriam atuar acima de qualquer suspeição. Contra estes e todos os delinquentes, a implantação de um Estado policial seria o sistema que a população iria aplaudir no momento. Não existe liberdade cerceada quando a privacidade criminosa é invadida. Se todos têm direito de defesa, no Brasil esse direito é convertido em acobertamento e protecionismo quando envolve figuras importantes capturadas pelas malhas da lei. Quem é interceptado por esse ''guardião'' já não é suspeito mas criminoso explícito.

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