Gritos de ódio e cânticos de amor
Maria Lucia Victor Barbosa
Entre as manifestações de massa que marcaram esta semana, tivemos: o ‘‘Grito dos Excluídos’’, em Brasília, as comemorações do Dia da Padroeira, em Aparecida, e o encontro católico ‘‘Em Nome do Pai - JC 2000’’, no Rio de Janeiro. A Igreja Católica teve responsabilidade fundamental na organização dos três eventos, uma vez que o primeiro foi orientado pela Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), associada ao Movimento dos Sem Terra (MST); o segundo foi promovido pela Arquidiocese de Aparecida; e o terceiro arregimentado pelo movimento de Renovação Carismática.
Deste modo, houve uma demonstração incontestável dos três grandes segmentos da Igreja, ou seja: 1) A Igreja Progressista centrada na Teologia da Libertação. Este setor é eminentemente político, de cunho revolucionário e, portanto, autoriza e induz o uso da violência no melhor estilo maquiavélico. Esteve sempre presente na Igreja como atestaram, por exemplo, as Cruzadas, a perseguição aos grupos heréticos, a Nova Inquisição, etc. 2) A Igreja Tradicional, que enfatiza a fé, a liturgia, os milagres, os dogmas, e que foi capaz ao longo do tempo de arrecadar vultosas somas e de assim constituir o capital e o patrimônio da instituição. 3) Os movimentos diversificados para atrair mais fiéis. Eles se apóiam em grande parte no trabalho dos leigos, que assim suprem a falta de mão-de-obra eclesiástica atualmente escassa.
As manifestações de Aparecida e do Rio de Janeiro revestiram-se de pleno êxito. Configuraram-se em catarses coletivas, nas quais a religiosidade se somou à emoção dos shows com a participação de ídolos como Roberto Carlos (na Basílica de Aparecida), e do carismático padre cantor Marcelo Rossi (no Maracanã), acompanhado por mais oito clérigos.
Ao Santuário Nacional de Aparecida, onde se encontra a maior basílica do mundo, e que pode ser apontado como o maior pólo turístico-religioso brasileiro, acorreram 170 mil fiéis, sendo que 45 mil lotaram a basílica para assistir à missa em homenagem à padroeira do Brasil. No Maracanã, 161.722 pessoas superlotaram um dos maiores estádios do mundo, excedendo em 40 mil sua capacidade, enquanto que outras 15 mil não conseguiram entrar.
E em que pese os típicos recursos da indústria do entretenimento, utilizados nas duas manifestações, pode-se dizer que os sentimentos nelas despertados foram os da fé, da solidariedade e do amor universal. Portanto, emoções extremamente positivas, e neste particular a Igreja Católica, através dos seus segmentos tradicional e de movimentos, no caso o Movimento Carismático, cumpriu seu papel religioso de religar os homens a Deus entoando cânticos de amor.
Já no outro setor da Igreja, o da política, o patrocínio eclesiástico não funcionou bem. O ‘‘Grito dos Excluídos’’ converteu-se no grito de ódio de baderneiros e dos sem-que-fazer, e reuniu em Brasília, segundo a Polícia Militar do Distrito Federal, apenas umas 600 pessoas. Entre elas abundavam os chamados ‘‘punks’’, ou seja, o tipo de marginália que nunca contribuiu em nada para livrar os excluídos da exclusão.
Os ‘‘punks’’ assumiram a manifestação, quebraram a placa de identificação da Embaixada dos Estados Unidos e nela escreveram: ‘‘Malditos assassinos’’, numa evidente manifestação de recalque latino-americano. Os ‘‘excluídos’’, ou seja, os mais pobres, não se fizeram presentes como, aliás, nunca estão presentes em acontecimentos desse tipo, que por serem extremamente radicais e negativos não sensibilizam a maioria.
Além destas manifestações, seria interessante ainda mencionar a ‘‘Marcha Popular pelo Brasil’’, que tendo culminado em Brasília na semana passada, também não obteve o êxito pretendido. Desta marcha participaram os indefectíveis estudantes que vivem in love com o PC do B; os sem-terra que, ao que parece, quando não estão praticando atos de vandalismo e banditismo em terras invadidas, estão fazendo manifestações; as figuras conhecidas de certos políticos que se autoproclamam de esquerda; os sindicalistas e os ‘‘punks’’ apedrejadores.
No encerramento, o coordenador nacional do MST João Pedro Stédile, discursou diante da sede do Banco Central. Ele pregou a depredação dos pedágios, a ocupação das usinas hidrelétricas, a invasão de terras, o bloqueio das estradas. Tudo isto prepararia a paralisação nacional, com data marcada para 10 de novembro, e que está sendo preparada pelo MST, pela CUT e habituais ‘‘companheiros’’. A meta da paralisação ou greve nacional faz parte da estratégia para derrubar o presidente Fernando Henrique.
Stédile – que nunca ocultou seus ideais revolucionários, irmanados a organizações sanguinárias e terroristas como as do Sendero Luminoso (do Peru), das Forças Armadas Revolucionárias (da Colômbia) e do Movimento Zapatista (do México) – anteriormente já havia concitado as massas a invadir bancos e supermercados. Com isto, o ‘‘cérebro’’ do MST demonstra claramente que a meta do seu movimento não é a reforma agrária, mas sim a derrubada do regime democrático para a implantação de uma espécie de stalinismo tupiniquim alucinado, que ninguém sabe a que vem.
João Pedro Stédile e tantos outros parecem pairar acima das leis. Falam o querem, incitam ao crime e ao terrorismo, enquanto o governo apenas resmunga algumas advertências nunca concretizadas e observa complacentemente as invasões de fazendas produtivas e sua destruição. Entrementes, a Igreja concilia a cruz e a espada, e se a espiritualidade da cruz tem atraído muito mais gente, não nos enganemos, pois a espada da destruição, apesar de menos atrativa, já está trazendo e poderá trazer enormes sofrimentos à sociedade como um todo. Urge, pois, que a lei seja cumprida para pôr um fim às ações criminosas daqueles que, pregando a defesa dos excluídos, na verdade querem manter os pobres sempre pobres para melhor dominá-los.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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