Curitiba - O inverno paranaense está castigando a população. As baixas temperaturas e o índice de ocorrência de chuva muito maior do que a média são o cenário propício para a proliferação do vírus A (H1N1), transmissor da temível ''gripe suína''.

Os países do Hemisfério Norte já se preparam para a segunda onda da doença - no próximo inverno grande avalanche de casos e mortes podem acontecer se ações não forem tomadas. A comunidade internacional põe esperança em uma medida: a comercialização de uma nova vacina. Por enquanto, ela está em fase de testes.

Se tudo der certo, os países do Primeiro Mundo deverão ter as doses disponíveis em setembro. Mas como fica o Brasil e outros países da América do Sul, em relação ao acesso à nova vacina? Ainda não se sabe quanto tempo levará para órgãos brasileiros, como o Instituto Butantã, produzirem suas vacinas.

O médico Juarez Cunha, do Núcleo de Pesquisa em Vacinas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS), lembra que é preciso estar atento à equidade entre os países, para que a vacina não atenda somente as nações ricas. Leia abaixo entrevista com o autor do livro Vacinas e Imunoglobinas - consulta rápida, recém-lançado pela Artmed Editora.

A previsão é de que as primeiras doses da vacina contra a Influenza A devem estar disponíveis no segundo semestre deste ano no Hemisfério Norte. A partir dessa notícia, o brasileiro pode ficar tranquilo?
Ainda não está bem claro quando essa vacina vai estar disponível. Os primeiros testes serão feitos na Austrália e só depois será liberada para uso. Se a vacina se mostrar segura e eficaz, estará disponível. Terão de ser observadas a capacidade de produção e a equidade (disposição de reconhecer igualmente o direito de cada um). Não se pode correr o risco de só os ricos comprarem. A gente tem que produzir uma vacina eficaz e segura.

Europa e EUA enfrentarão o segundo ciclo da gripe A no final do ano e deverão ter o benefício da vacina. Isso ajudará a América do Sul a reduzir o número de casos no ano que vem?
A partir do momento que tem uma menor circulação do vírus, consequentemente deve-se reduzir o número de pessoas doentes. Mas os EUA continuam registrando casos da nova gripe mesmo no verão. A tendência é que os casos aconteçam em maior número, agora, no Hemisfério Sul, por causa das temperaturas mais baixas.

Adultos e crianças poderão se imunizar contra a gripe A?
As vacinas atuais podem ser utilizadas a partir dos seis meses de idade. Imagina-se que a vacina que será desenvolvida cobrirá a mesma faixa etária.

Como, inicialmente, não deverá ter vacinas suficientes para todo mundo, autoridades de saúde sul-americanas reunidas recentemente em Buenos Aires concordaram que devem receber as doses pacientes dos chamados ''grupos vulneráveis''. Quem faz parte desse grupo?
Todos os pacientes de maior risco por causa da situação de saúde ou de idade. Os menores de dois anos e idosos acima de 60. Independente da idade, pessoas com doença de base e que o vírus irá desencadear o desequilíbrio dessas doenças. Por exemplo, quem sofre de diabetes, pneumopata crônico, com cardiopatia severa, câncer, HIV, transplantados.

O Brasil também poderá produzir a vacina?
O Brasil é considerado país de ponta em tecnologia e produção de vacina. A partir do momento em que for comprovada sua eficiência, o Brasil poderá produzir também.

Mas os laboratórios vão abrir mão da patente?
Em um quadro de pandemia, não imagino que um laboratório fosse criar um empecilho para que outros possam produzir a vacina. A própria pesquisa da vacina da gripe A não será muita demorada justamente para poder ser aplicada no outono deles. É diferente da vacina do rotavírus, que levou dez anos de pesquisa. Então, o investimento não é muito grande porque a própria pesquisa da vacina atual não será muito demorada.

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