Sou docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 1977. Durante todo este tempo, lutei sempre por uma universidade pública, gratuita, de qualidade e autônoma. Nos últimos 24 anos, participei efetivamente de sua construção e evolução. Dediquei a minha vida profissional à UEL, trabalhando exclusivamente nela desde a data de minha contratação.
A UEL atravessa agora uma grave crise, que vem crescendo e se avolumando nos últimos anos. É uma universidade pública que, como todas as outras, vem sofrendo e sendo sucateada com o descaso de nossos governantes.
Sobre as universidades públicas, usando os dados publicados recentemente pela imprensa, o perfil da renda familiar de universitários matriculados nas escolas públicas que fizeram o provão mostra que apenas 5,7% deles têm renda superior a R$ 7.500,00 e 71,2% possuem renda que não ultrapassa R$ 3 mil; ou seja, a grande maioria é de classe média baixa e de classe de baixa renda. Estes dados contrariam o que muitos acreditam e usam como argumento, o de que as universidades públicas são normalmente frequentadas em sua maioria por alunos de alto poder aquisitivo, para tentar justificar a privatização das mesmas.
Temo que as comunidades de Londrina e região, externas à UEL, não tenham uma idéia precisa da importância da mesma e do que ela representa para todos nós. No sentido de oferecer alguma ajuda sobre isto, reapresento nesta oportunidade alguns dados, que foram divulgados num jornal das entidades da UEL. Os números são: alunos de graduação (13.368); alunos de pós-graduação (2.188); professores (1.683); funcionários (3.916); cursos de graduação (38); cursos de especialização (49); residências médicas (27); residências em medicina veterinária (4); residências em fisioterapia (2); cursos de mestrado (11); cursos de doutorado (3) e projetos de pesquisa, ensino e extensão (725).
Olhe e analise esses dados: quantas pessoas estão direta e indiretamente ligadas à UEL?
Quero dizer que eu não sou intransigente, irresponsável ou que estou fazendo greve porque gosto. Nossas entidades representativas esperam e tentam negociar com o governo há muito tempo e nunca tivemos nenhum retorno, nenhuma sensibilização, nenhuma proposta concreta. É como esmurrar uma parede de concreto e a única opção que nos restou foi entrar em greve.
Tenho respeito pela instituição, pelos meus colegas e pelos alunos (já dei aulas a milhares deles). Agora espero contar com o seu apoio, compreensão e respeito.
Você acha que estou me sentindo bem fazendo greve? Que gosto? Tenho uma filha que é formanda do curso de química da UEL. Ela acompanha de perto a perda de nosso poder aquisitivo, a nossa luta e a nossa dedicação.
Caros formandos, não existem atalhos para a formatura. O seu curso tem uma carga horária fixada pelo MEC que deve ser cumprida integralmente (100%). Já ouvi alguns dizerem que se formariam com 75% da carga horária; isto é um engano. Já ouvi até proposta de se contratar professores temporários para completar carga horária. Esta é uma proposta ingênua e inviável, em se tratando de uma grande universidade, como é o caso da UEL. Veja nos dados apresentados anteriormente o número de cursos (todos eles devem ter formandos), quantas disciplinas são ofertadas a eles, quantos professores ministram essas disciplinas? E os trabalhos de conclusão de curso? E os trabalhos de teses? Muitos deles vinculados aos projetos. Quem vai pagar esses professores? Teremos editais de concurso público? Quem vai selecioná-los? Quanto tempo isso leva? Vai ficar mais barato que o nosso reajuste? Sem falar na questão de como conseguir, em curto prazo, tantos profissionais altamente qualificados (mestres, doutores e pós-doutores)? Só para se ter uma idéia, após a conclusão do Ensino Médio, são necessários de 12 a 15 anos para formar um desses profissionais.
Caros alunos formandos ou não, estamos juntos nessa crise e queremos a mesma coisa, trabalhar com tranquilidade, viver com dignidade e ter nossos direitos respeitados.
Torço para que o governo se sensibilize e negocie conosco para chegarmos a um consenso o mais rápido possível.


- CLÉIA GUIOTTI DE PÁDUA é professora universitária e mestre em Física em Londrina

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