Greve da UEL: o egoísmo que se faz heróico
Minhas primeiras impressões acerca desse movimento paredista que se instalou na UEL foram desanimadoras. Atribuí aos sindicalistas um carácter radical, símbolo daqueles que se movem por razões pessoais ignorando a complexidade de tudo que nos cerca. Enquanto o País se divide em desempregados e trabalhadores que estão com os salários atrasados, os professores e servidores da UEL, ao invés de clamar seus direitos na via judicial (não tão rápida, mas quase infalível), aderiram a uma prerrogativa única e exclusiva do setor privado - o direito à greve. Lembrei-me da estabilidade que só o funcionalismo público oferece e do clima de libertinagem geral que impera sobre muitos centros de estudos de nosso centro universitário. Concluí imediatamente que o movimento paredista deveria ser interrompido, já que eles não poderiam ferir os princípios do contrato social estabelecido entre a sociedade e o Estado.
Eis que ao surgir essa figura da sociedade civil organizada, ou seja, o Estado, passei a compreender as motivações dos grevistas. O nosso desgovernador Jaime Lerner há muito desrespeita qualquer pacto firmado nas bases que Thomas Hobbes havia estabelecido o contrato social. Um político que nos tributa por duas vezes (pedágio); ignora nossas universidades repassando mais verbas à secretaria de governo (popularmente conhecida como setor de barganha); tenta por meses vender nossa maior estatal e última possibilidade de escapar do apagão; demite funcionários do Estado que ousaram expressar sua indisposição diante do status quo (casos de Maringá); carrega consigo em cada entrevista asseclas (que se dizem jornalistas) pagos por nós que irão lhe encher de elogios e perguntas falsas; ignora o interior do Paraná como se o palácio do Iguaçu fosse sustentado por exclusivos tributos curitibanos. Enfim, um governador que nos impele a cada imposto pago lembrar que nem o PFL do Maranhão (o Estado mais pobre do País) conseguiu causar tanta injustiça em um só território.
Após essa breve memória, certifiquei-me de que os grevistas guiavam-se por um egoísmo que no fundo age contra um mal maior, o nosso desgovernador. Ele não se lembra mais dos apoios do afastado, cassado e preso Antônio Casemiro Belinati; não se recorda da promessa que fez aos paredistas em julho de 2000, assegurando reajuste para 2001; não se lembra de todos os abusos de seu assessor especial Gélson Guellmann ao lhe indicar para o Tribunal de Contas do Estado; também não tem em sua mente os vilões que levaram nosso Banestado. O que fica na mente de Lerner são os brilhos de uma Nova York que ele não construiu, de uma Londres em que ele adora passear, de um Brasil que ainda o considera político modelo. Lerner há muito não vê a realidade; e a única maneira de forçá-lo à verdade, é apoiar um movimento paredista. Eis a nossa tragédia atingir o justo pelos meios possíveis, ainda que ilegais.
RODRIGO SOUZA GROTA é jornalista em Londrina.





