Gravidez de alto risco - Fernando José Dias da Silva
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de janeiro de 1998
Fernando José Dias da Silva 
O ano de 97 foi de plantar sementes. Aliás, como todos os anos. Mas nesse foi a Xuxa que ficou grávida, a Sula Miranda também. Duas grandes cantantes na opinião de alguns, principalmente da classe dos baixinhos e da classe dos caminhoneiros. E cantantes com outros atributos. Na política, embora não haja cantantes, só animadores de auditório, aconteceu o mesmo. Em 97, a semente da reeleição foi plantada para ser colhida em 98. Com a crise financeira foi a mesma coisa. Foi um ano de expectativas, de espera, de ensaio-geral do que está para vir. A apoteose, a globalização, o esplendor do arremate, da estocada final.
Mas poderia ter sido melhor. A torcida é para que no caso das meninas - Xuxa e Sula - tudo vá bem. No caso da gestação da reeleição a coisa foi mais complicada. Foi gravidez de alto risco que conseguiu ser encaminhada depois de várias intervenções do pai da criança. E com acusações de ter corrido dinheiro para aqueles que colaboraram na concepção.
Até uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi pedida para apurar a questão, mas foi barrada pelo governo. Em matéria de CPI a que fez sucesso mesmo foi a CPI dos Precatórios. Aquela história dos títulos públicos que eram autorizados pelo Senado para serem colocados no mercado, emitidos pelos governos estaduais e municipais para pagar dívidas, mas que no meio do caminho pegavam um atalho e iam parar em bolsos, carteiras ou malas pretas desconhecidos. Muita gente apareceu nesse caso. Aproveitou como pode as luzes da televisão. Cães farejantes conseguiram até retomar a trilha de algumas pegadas desse dinheiro. Mas, como era de se esperar, a CPI dos Precatórios não deu em nada. Não gerou consequências maiores. Pegaram os bagrinhos de sempre.
Talvez o mais importante do que aconteceu em 97 não tenha sido um fato ou um conjunto de fatos. Na área política, o mais importante foi a constatação de que o governo Fernando Henrique não é tão diferente dos que o antecederam. Os métodos usados para governar foram semelhantes. Ao contrário do que os tucanos diziam, de peito estufado, no começo do reinado. Eles diziam principalmente que o ato de governar seria um processo com a sua dinâmica própria sem causar sustos para ninguém. Aí veio a reeleição, a tramitação complicadíssima das reformas no Congresso e principalmente a crise financeira que pegou a equipe econômica de calças curtas.
Mas até aí tudo bem, se é que podemos dizer assim. A consequência de tudo isso nós vamos sentir em 98. Fernando Henrique não se abala. Enquanto uma ala de tucanos está à beira do pânico diante de previsões pessimistas sobre o início de 98, o presidente disse a alguns governadores recentemente que os catastrofistas vão quebrar a cara. Tomara que Fernando Henrique esteja certo.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


