Seria melhor para o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e para a Justiça como um todo, que o aspecto negativo do episódio de quarta-feira no plenário do STF já estivesse superado (como quis o magistrado, depois das críticas que sofreu), mas o caso não será esquecido e ainda terá repercussões, porque foi um marco histórico pela circunstância e pela sua natureza. Se a Justiça deve ser soberana como instituição, ou será a anarquia, a comunidade togada que a compõe não é intocável.
Destituam-se seus integrantes se necessário para salvaguardá-la e assim mantê-la intacta. A instituição não se desgasta, mas muitas vezes são seus titulares que a deslustram, então reclama-se o desassombro dos corajosos (no âmbito do próprio meio ou no seio da opinião pública) que se insurgem contra a prepotência e assim coloca-os a prumo ou os afasta do poder. Os grandes consertos se operam também por passos às vezes transversos e por atos de coragem e independência.
O exemplo do ocorrido no STF serve para todas as instâncias da Justiça e remete para reflexões sobre comportamentos de magistrados e de quantos detêm cargos de comando. Se numa nação as colunas mestras do seu regime institucional balançam, será preciso usar a força da contenção para que não desmoronem e gerem o caos. Salvar as instituições é mais que prudência, mas também ação. Não a insubordinação e a insurgência desordeira que põem em risco o equilíbrio da ordem pública e instalam a baderna, mas a solene altivez dos honrados e corajosos. Estes são os homens imprescindíveis, e que não são escassos como equivocadamente se supõe mas apenas aquietados e necessitados de uma impulsão que os mova. Um Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que teve o ideal patriótico e a coragem de se insurgir (e como consequência de seu sacrifício mundou a história), ou um togado Joaquim Barbosa, são capazes de despertar iras cívicas contidas e brios adormecidos e colocar de pé e à ordem esta nação um tanto acomodada. O brado isolado que ecoou no templo da Justiça e propagou-se pelo Brasil inteiro, com toda a certeza não foi em vão e deixou marca profunda.
Se todos silenciam ante o arbítrio, os ocupantes do poder se julgam corretos em seus procedimentos e imunes de condenação por seus desmandos. Por isso os males triunfam, e depois que se instalam e se cristalizam é mais difícil removê-los. O entrevero de quarta-feira e que resultou num ímpeto de coragem de um dos membros da Corte suprema pode desencadear atitudes semelhantes em todas as esferas dos poderes onde imperem o mandonismo, a arrogância, a insensatez e coisas piores.

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