Curitiba - Importantes companhias de teatro no Brasil continuam disputando as atenções no 11º Festival de Teatro de Curitiba, que começou no dia 21 de março. Até agora, ‘‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’’, dirigido por José Possi Neto, foi a peça que reuniu o maior público, lotando o Teatro Guaíra. A montagem contou com a bênção do autor, o Nobel de Literatura José Saramago.
O ator Eriberto Leão interpreta Jesus de Nazaré. Durante entrevista coletiva, em Curitiba, Leão filosofou sobre religião e confessou ser difícil compor seu personagem. Afinal, cada um possui uma sensação sobre essa figura histórica. ‘‘Mas Jesus que aparece no palco se parece comigo’’, disse modestamente Leão, que manteve um affair com Tiazinha, doublé de si própria. Já a atriz Maria Fernanda Cândido – Maria Madalena – apenas pôde ser vista no palco numa performance sofrível. O embate entre Deus e o diabo, respectivamente Paulo Goulart e Celso Frateschi, se revelou o grande momento de ‘‘O Evangelho...’’
No Sesc da Esquina, o diretor gaúcho Luciano Alabarse encenou o inédito ‘‘Almoço na Casa do Sr. Ludwig’’, de autoria de Thomas Bernhard. O texto vigoroso de Bernhard retrata um almoço na casa do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, um homem excêntrico, sufocado pela fortuna (!) e pelas irmãs dominadoras. O ator Luiz Paulo Vasconcelos, depois de anos afastado dos palcos, ressurge de forma magnífica, mostrando uma expressividade sob medida, quase instintiva.
‘‘Mãe Coragem e Seus Filhos’’, de Bertold Brecht, estreou no Teatro Guairinha neste fim de semana. A tradução de Alberto Guzik, Sérgio Ferrara e Maria Alice Vergueiro se mostrou atualizada, sem pudor em abusar de gírias e palavrões. Mãe Coragem vive das sobras da guerra e trava sua batalha pessoal ao ver seus filhos sendo abatidos um a um. Num cenário basicamente composto por lonas e uma carroça, o elenco de peso, com José Rubens Chachá e Rubens Caribé, estreou sob grande expectativa. A atriz Maria Alice Vergueiro – a Mãe Coragem Anna Fierline – pôs em cena o arquétipo da maternidade, com todas suas contradições. No mesmo instante em que se revela protetora, Anna Fierline pode ser ferina, sem constrangimentos. A personagem se mostra sob medida para Maria Alice Vergueiro, mas as limitações da atriz como cantora ficou evidente.
O diretor Sérgio Ferrara procurou não reverenciar o autor alemão, mas seguir lado a lado com ele, como frisou à imprensa. Mas não tomou a mesma atitude diante da força dramática da atriz Maria Alice Vergueiro, reverenciando em demasia seu trabalho, em detrimento de ajustes necessários à dinâmica das cenas e coesão do elenco. O ator Rubens Caribé surpreendeu a todos com sua voz afinada no musical épico.
Na estréia, na cena final da peça, quando Mãe Coragem sai de cena puxando a carroça, a atriz Maria Alice Vergueiro tropeçou na lona do palco e caiu sobre o ombro. Ela recebeu o aplauso do público com expressão de desespero. Quando as cortinas se fecharam, a atriz foi levada ao pronto-socorro. Por sorte, foi apenas uma luxação e ela agora pode continuar a saga de Bertold Brecht.
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