GRANDE PRÊMIO - A mais rica herança de um tricampeão
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 2008
Marco Feltrin<br> Reportagem Local 
Campeão nas pistas, Ayrton Senna foi um dos maiores ídolos do esporte brasileiro. Mesmo após sua morte, em 1994, o piloto continua fazendo bem ao povo de seu País, graças à criação do Instituto Ayrton Senna, que em 13 anos de existência já transformou a realidade de 7,89 milhões de crianças e jovens com soluções voltadas ao desenvolvimento humano.
Em Londrina, o instituto está presente com os programas ''Sua escola a 2.000 por hora'' e ''Educação pelo Esporte'', através do projeto Perobal, desenvolvido em parceria com a UEL, atendendo crianças carentes da Zona Oeste da cidade.
Em entrevista exclusiva à FOLHA, a presidente do instituto e irmã do tricampeão, Viviane Senna, fala sobre os métodos aplicados nos projetos educacionais e faz uma análise da educação no Brasil. ''Temos um contingente excessivo de crianças nas escolas que não estão aprendendo. Enquanto só tivermos quantidade, não evoluiremos'', critica.
A criação do instituto já era um desejo do Ayrton?
Sim. Ele queria realizar algo sistemático, voltado à educação, que ajudasse crianças e jovens a terem oportunidades para se desenvolverem. A desigualdade social, especialmente refletida nas novas gerações, o incomodava. Por isso, após o acidente, minha família decidiu realizar o sonho de Ayrton. E o instituto foi fundado em 1994.
Quais foram as principais dificuldades no começo?
Quando fundamos o instituto, começamos com ações pontuais. Em pouco tempo, pude perceber que elas não trariam as mudanças necessárias para o País. Por isso, assumimos como missão ajudar a criar oportunidades de desenvolvimento humano às novas gerações. O problema do Brasil é a enorme desigualdade social. Modificar esse quadro exige estratégias de atacado, que impactem em grande escala para transformar realidades inteiras. Assim, de uma organização focada em atendimento pontual, passamos a criar soluções em educação para garantir que crianças e jovens recebam oportunidades educativas de qualidade. Só assim esses meninos e essas meninas poderão vencer na vida.
Hoje são quase oito milhões de crianças e jovens atendidos. Este resultado é uma mostra de que basta iniciativa para as coisas darem certo?
É uma mostra de que a situação educacional do País ainda tem solução. Precisamos ter foco naquilo que acarreta os problemas já conhecidos para criar estratégias que mudem esta realidade, e que se resumem em gerência eficiente da educação, acompanhamento sistemático do processo de aprendizado e avaliação constante, em tempo real, para gerar ajustes e tomadas de decisões que não comprometam o resultado final: o sucesso do aluno.
Qual avaliação a senhora faz do ensino no Brasil?
Temos um contingente excessivo de crianças nas escolas que não estão aprendendo, um ''inchaço'' no sistema de ensino fundamental. São 34 milhões de alunos - praticamente uma Espanha - da primeira à oitava série. Há uma população a mais, de cerca de 10 milhões de crianças e jovens entre 15 e 20 anos, nas salas de aula. São alunos atrasados, porque repetem várias vezes, não conseguem aprender e avançar. O Brasil precisa aplicar a fórmula da quantidade com qualidade na educação para que esse cenário caótico seja transformado. Enquanto só tivermos quantidade, não evoluiremos.
Quase 14 anos depois da criação do instituto, a sensação é de dever cumprido?
Temos a sensação de que estamos no caminho certo. Continuaremos ampliando nosso trabalho frente aos programas que oferecem educação de qualidade em grande escala, qualificando ações com foco para a lógica da eficiência dentro do mundo da equidade social, buscando sempre resultados concretos e mensuráveis que impactem positivamente a realidade do maior número possível de crianças e jovens. Desta forma, daremos a nossa contribuição concreta para ajudar o País a diminuir as desigualdades sociais intoleráveis.
O instituto é a melhor maneira de manter cada vez mais viva a importância que o Ayrton tem para o povo brasileiro?
O instituto é, sem dúvidas, uma das mais belas vitórias do meu irmão e é seu grande legado à sociedade brasileira. Ayrton sempre foi um apaixonado pelo Brasil e sempre deixou isso muito claro. Em todos os lugares em que ele ia, fazia questão de levantar a nossa bandeira. As pessoas viam isso e se identificavam, tendo um carinho e admiração por ele, além de compartilhar a alegria de suas vitórias. Também está presente nos fãs, nos brasileiros em geral, esse lado luminoso que ele exaltava toda vez que subia ao pódio, o lado vencedor do País, que nos remete aos valores que ele defendia nas pistas e na vida: garra, motivação, determinação, superação e orgulho de ser brasileiro. Tudo isso permanece no imaginário das pessoas porque ele foi um grande piloto e um grande brasileiro.


