Grampos, apenas continuidade dos escândalos
O ardiloso político Luiz Inácio Lula da Silva não deseja obviamente parecer indiferente à denúncia de espionagem no Supremo Tribunal Federal (STF), presidido pelo ministro Gilmar Mendes. Imediatamente, como medida de impacto, afastou temporariamente a cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). E quarta-feira, como resposta a um pedido do magistrado, deu ordem ao ministro da Justiça, Tarso Genro, para elaboração imediata de um pacote de medidas normativas antigrampo.
Verdadeira ou não a escuta clandestina de conversa do presidente do STF, a Abin, que é um serviço de inteligência e que tem a ver com a salvaguarda das instituições, vale-se de métodos múltiplos de investigação. Mas, se o grampo clandestino é uma irregularidade que precisa ser combatida, parece não incomodar a opinião pública, que deve estar considerando isto como coisa do foro doméstico das administrações públicas, onde são constantes também outras graves denúncias. É, portanto, uma irregularidade servindo à causa da suspeição de ilicitudes idênticas e também das intrigas entre os poderes.
Estas são metologias comuns dos governos: espionar onde lhes convêm e não desejar serem espionados no que não é bom que o povo saiba. Essas providências abruptas do comandante supremo da República dão a idéia de que as coisas irão mudar, mas certamente continuarão como estão. O presidente do STF, Gilmar Mendes, esteve no centro do cenário quando por duas vezes concedeu habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, depois de investigação da Polícia Federal que levou à cadeia, com ele, também o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. A soltura foi considerada um ato inconstitucional pelo procurador da República, Rodrigo de Grandis, e gerou - por declaração do ministro - um protesto de 130 juízes federais.
Outros 45 procuradores consideraram ''um dia de luto'' esse em que ocorreu a libertação dos três. Eles também cogitaram de um pedido de impeachment de Mendes - uma intenção que não se formalizou mas foi manifestada publicamente. A seguir a Central Única dos Trabalhadores protocolou no Senado um idêntico pedido. A denúncia de grampo no Tribunal, que ora ocorre, é apenas a continuidade dessa corrente de fatos desagradáveis envolvendo instituições. Nada pior do que outros escândalos a que a nação já se acostumou.





