Gaudêncio Torquato
Há 2.500 anos, SunTzu, um pequeno general chinês, escrevendo sobre a arte da guerra, pontificava: ‘‘A água modela seu curso de acordo com a natureza do solo por onde passa; o soldado prepara sua vitória de acordo com o inimigo que está enfrentando. A água não mantém sua forma constante; também na guerra não há condições constantes’’. Pois bem, em muitos Estados a guerra administrativa está sendo perdida porque as equipes de governadores reeleitos consideram que as condições do primeiro governo permanecem constantes, não havendo, portanto, motivação para a revitalização de programas, ímpeto criativo e alavancagem de ações novas e diferenciadas.
Um giro pelo País mostra que a desmotivação está invadindo os ambientes burocráticos das administrações, amortecendo, inclusive, a figura de governadores que, até pouco tempo, eram considerados pró-ativos, dinâmicos e criativos. Há poucas exceções. Na maior parte dos Estados, a renovação das equipes foi tênue, apenas com trocas de posições e cargos, poucas novidades programáticas e muita acomodação. A síndrome da rotinite é seguramente um dos frutos azedos do processo da reeleição.
Por que forma-se, com tanta facilidade, um limbo mental nas equipes? Primeiro, porque, garantidos nos cargos, os secretários e suas equipes ingressam num processo de relaxamento, lubrificado por um ‘‘fazer contínuo’’ e repetido, que acaba entorpecendo as mentes. As rotinas cotidianas, reguladas pela mesmice, impregnam os ambientes, fazendo sucumbir o entusiasmo, a motivação e a criatividade. Os reflexos condicionados de Pavlov explicam. Os atos sequenciais e repetitivos jogam as pessoas no buraco de uma inibição que, irradiando-se sobre a superfície cortical, deixam-nas em estado de sonolência.
O organismo é submetido a excitantes de baixa intensidade. A generalização da inibição interna enfraquece a faculdade de resistência dos mecanismos nervosos superiores. Daí para o condicionamento, é um passo. E o condicionamento deflagra a formação de hábitos automáticos, autônomos. Os atos adquirem a forma de rotina, respondendo maquinalmente a fracos estimulantes.
Além da rotinite, as equipes desenvolvem também a síndrome da apropriação indébita. Consideram como seus os territórios (físico e psicológico) das secretarias, departamentos e divisões que ocupam. Incorporam a figura do Estado, sendo deles uma projeção e fazendo de seus ‘‘feudos’’, frequentemente, uma extensão das salas de estar, das cozinhas e até dos quartos íntimos de suas casas. Exagero? Vejam como se comportam certos agentes da administração pública diante das demandas de cidadãos simples e até de pessoas detentoras de poder, que vão bater nas portas dos gabinetes. Eles agem como se estivessem fazendo um favor, não uma obrigação.
Essa tessitura é propícia para o loteamento das máquinas e a operação de negócios ilícitos. Desenvolve-se uma relação incestuosa entre a coisa pública e o interesse privado. Obras são dadas a determinados grupos, sob o patrocínio de licitações encomendadas ou arranjadas. Programas são inventados para carrear recursos e engordar o cofre de políticos e amigos que os ajudaram nas campanhas. Empregos são conseguidos para amparar os dirigentes das bases eleitorais. Governantes, já cansados de governar, passam o tempo passeando, a título de atender convites internacionais e conhecer experiências e projetos com pseudoviabilidade em seus Estados. (Afinal, o que a culinária francesa pode fazer pelo desenvolvimento do Nordeste? Em que o bacalhau da Noruega pode ajudar a pesca no Norte? Será que as Pirâmides do Egito podem servir de modelo para a construção de Mausoléus no Centro-Oeste? E a experiência japonesa com terremotos pode fornecer tecnologia para as nossas grandes catástrofes?)
Faltam aos governos que ganharam um segundo tempo, novos eixos, um banho de energização nas equipes, mais pudor ético e visão sistêmica sobre uma administração de 8 anos de duração. A hora é de redesenho, de replanejamento, de adoção de posturas criativas e idéias avançadas. Quem ficar patinando nesses tempos de grandes exigências sociais, poderá escorregar e nunca mais se levantar. Um lembrete: a riqueza da moeda não salva um pobre de espírito.

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