Existirá opinião pública? O livre- arbítrio funciona? Até onde vão os limites da liberdade individual? A democracia é o governo da maioria? Movimentos sociais são de fato demonstrações de consciência grupal ou manifestações comandadas por interesses superiores? O que se discute numa reunião que já não esteja previamente estabelecido?
Basta. A continuar esse artigo seria exíguo demais para caber tantas indagações, que podem ocorrer a quem tem curiosidade em excesso e mania de pensar. Mas será que é bom bisbilhotar os insondáveis desígnios da existência, fazer perguntas sem resposta? Possivelmente não seja saudável desenvolver tais raciocínios, que por sua inutilidade não chegam a lugar nenhum. Pensar cansa e é coisa de filósofo. Por isso, a maioria dos humanos não se dá a esse luxo, preferindo a máxima ‘‘carpem die’’ (‘‘aproveite o dia’’), bem mais sábia, descontraída e divertida.
Mas exatamente por essa congênita incapacidade de nos darmos ao trabalho de pensar sobre certos assuntos, por conta de nossas ocupações rotineiras, por estarmos cansados demais para pesquisar temas complexos, deixamo-nos ser conduzidos por poderes mais altos. Assim, repousamos nas religiões, nas ideologias, nos bastidores das decisões políticas, nas esferas dos superiores interesses econômicos. Isso, é claro, não deixa de ser cômodo, mas o fato é que desse modo somos tangidos como gado dócil pelos governos invisíveis.
O pior é que não há como mudar tal coisa, e esse é o absurdo da condição humana na qual a essência é a ignorância de quase tudo que é fundamental, a indiferença sobre o que extrapola os estreitos limites do entorno pessoal, a necessidade das respostas prontas e de guias que nos mostrem caminhos. Mesmo uma das maiores indagações, ou seja, o que é vida, fica sem resposta satisfatória.
Alguém dirá: vida é comer, beber, reproduzir, ao que pode ser acrescentado, elevando o nível das necessidades do reino puramente animal ao reino humano: levar vantagem em tudo, sentir-se o centro do universo, achar que se tem sempre razão, proferir tolices com ares de sábio, preferir a mentira à verdade, comprazer-se na ilusão já que a realidade é dura demais.
Sobre ilusões, especialmente as do poder, meditemos, por exemplo, sobre a democracia. E nesse sentido nada melhor que recordar o implacável jornalista norte-americano Henry Louis Mencken, cujo pensamento reforça minha tese de um governo invisível: ‘‘O homem comum, funciona como cidadão, tem a sensação de que é realmente importante para o mundo – de que é ele que administra as coisas. Suas lamúrias contra os patifes e demagogos dão-lhe uma enorme e misteriosa sensação de poder – o que faz a felicidade dos arcebispos, sargentos de polícia e outras sumidades. Da democracia, ele extrai também a convicção de que sabe das coisas, de que suas opiniões são levadas a sério pelos maiorais – o que faz a felicidade dos senadores, das quiromantes e dos jovens intelectuais. Finalmente, dela sai também a consciência de um alto dever triunfalmente cumprido – o que faz a felicidade dos carrascos e dos maridos.’’
Mencken era extraordinário, e muito mais que um jornalista era um filósofo, já que jornalistas, com exceção dos editorialistas, são treinados para descrever a realidade e não para pensar a realidade. Inclusive, uma das grandes mágoas dos profissionais da imprensa, que sendo homens são por isso mesmo imensamente vaidosos, é que eles colhem e plantam notícias mas nunca são notícia. No máximo, aquela minoria notável que se destaca nas páginas dos jornais ou melhor ainda, aparecem como pop stars nos palcos iluminados das emissoras de televisão, conseguem uma pequena nota em algum cantinho da mídia quando morrem. Por isso, penso em prestar uma homenagem a Mencken, chamando-o em dias próximos para uma entrevista. Se Marx e Maquiavel já me atenderam, por que não viria até a mim esta mente privilegiada, que quando entre nós mostrou tantas verdades apesar de incômodas?
De todo modo, a impressão de ser conduzido e não de conduzir; a gradual perda da noção entre falso e verdadeiro, que cada vez mais se acentua neste mundo que avança célere rumo à realidade virtual, à padronização dos costumes, à massificação; produz em alguns um certo desconforto, uma sensação de impotência diante da qual se chega a indagar: quais os limites de minha liberdade? Sou de fato dotado de livre-arbítrio? Até que ponto minha opinião foi induzida, sobretudo pelos meios de comunicação, pelos mitos que me contaram, ou mesmo pelas mistificações com as quais induziram meu espírito a acreditar no inexistente? Estarei escravizado a alguma coisa que não consigo entender? Estarei sendo governado por governos invisíveis que determinam minha vida sem eu saber?
No mundo globalizado, onde a ficção vai se tornando realidade e já se fala num governo mundial, como outrora Auguste Comte já falava, ou num Big Brother mais ameno do que aquele calcado em Stalin, de George Orwell na sua obra ‘‘1984’’, existem pactos firmados na esfera dos governos invisíveis que são decisivos para toda a humanidade. E embates em esferas superiores se refletem nas lutas desencadeadas pelos homens comuns, que julgam estarem defendendo causas nobres ou seus justos interesses.
Resta saber se o inexorável processo de concentração do poder, iniciado com os grandes impérios da Antiguidade, continuado na formação dos reinos sob a égide do Absolutismo, e que ocorreu na formação do Estado Moderno, trará consequências positivas ou negativas para os homens. E talvez a resposta disso esteja ligada à batalha final entre os governos mundiais onde menos contarão as armas (que é coisa para os indivíduos comuns) e mais o intelecto.
No mais, como versejou Nietzsche no seu poema ‘‘O andarilho’’: ‘‘Um andarilho vai pela noite/ a passos largos;/ Só curvo vale e longo desdém/ São seus encargos./ A noite é linda/ Mas ele avança e não se detém,/ Aonde vai seu caminho ainda? Nem sabe bem.’’
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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