Governos frios e quentes
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terça-feira, 04 de novembro de 1997
Gaudêncio Torquato 
Nesses tempos de mudança de clima, provocada pelo fenômeno El Ni¤o, é oportuno medir a temperatura das administrações. As temperaturas podem variar de uma frieza polar a uma quentura tropical de 40ºC. Antes que alguém possa fazer inferência errada, é oportuno lembrar: o clima, na política, tem pouco a ver com fatores naturais. É decorrência do perfil e do estilo dos administradores, de seus programas de governo do sucesso de sua comunicação e da psicologia das massas, que é uma variável mutante. Para medir a temperatura dos governos, as pesquisas de opinião são instrumentos precários. Não captam, muitas vezes, o sentido do vento e o cheiro do tempo, elementos volúveis e incontroláveis.
O governo Fernando Henrique, por exemplo, é frio. A observação pode surpreender, principalmente quando se exibem pesquisas mostrando sua aprovação pela maioria da população. Uma coisa não elimina a outra. Para começar, temos um presidente de perfil muito elitista. Quando se junta às massas, parece um estranho no ninho. Seu habitat é o salão sofisticado. A platéia que o encanta é formada por gente de saber e cultura. A imensa maioria da população brasileira desconhece o que é um sociólogo, pois, no Brasil, o conceito de profissão ainda gira em torno do médico, advogado, engenheiro. Por isso mesmo, não é de estranhar a pesquisa Gerp, da última semana. Ela mostra um perfil humano do presidente, em São Paulo e no Rio de Janeiro.
A administração federal trabalha com questões abrangentes e difusas. O cidadão comum se interessa por temas de micropolítica, a segurança, o posto de saúde, a iluminação, a pavimentação das ruas. Sua referência política é a mais próxima a ele, como o prefeito e o governador. Ademais, o governo federal é uma federação de perfis diferenciados. As linguagens são desencontradas. E, para complicar, prefeitos e governadores descobriram a importância da comunicação e passaram a investir pesado nessa área, aparecendo mais que a figura do próprio presidente. Mas a propaganda exagerada, sozinha, não faz esquentar o clima de uma administração. Os exageros, aliás, provocam o efeito bumerangue, voltando-se contra o perfil do administrador.
É o caso de São Paulo, onde Mário Covas, que nunca fazia propaganda, agora colocou muita lenha nessa fogueira. Resultado: seu governo é frio. Não se sente a figura humana do governador. As administrações gélidas, como a de Covas, caracterizam-se por certo distanciamento psicológico das massas. Uma aura elitista toma conta dos climas ambientais. Ao contrário, os governos quentes apostam nas estratégias de proximidade entre o governante e os grupamentos sociais. Desenvolve-se certa taxa de cumplicidade entre eles. O governador ou o prefeito projetam um perfil de amigo, pai, irmão, vizinho, guarda de quarteirão, pau para toda a obra. Além de simpatia, eles criam empatia, que é a capacidade de entendimento perfeito entre as massas e os governantes.
Não é necessário que o administrador saia de porta em porta dando tapinhas nos ombros. Ou seja, não se trata de fazer demagogia. Pode e deve exercer a autoridade - não confundir com autoritarismo - mostrando, porém, que sabe exercer o poder com dignidade, justiça e solidariedade às causas comuns. Não adianta, também, se transformar em populista da noite para o dia. O povo sabe distinguir perfis corretos de oportunistas. E sabe avaliar exageros de propaganda enganosa ou artificial. O artificialismo, aliás, tem dominado o tom das campanhas. Mensagens que soam falso, fontes que não expressam a cultura e o perfil do ambiente, exuberâncias cosméticas apelativas são, entre outros, barreiras à comunicação eficaz.
Quem pode dizer, no país, que faz uma administração quente? Para quem estiver convencido disso, aconselha-se fazer um check-up antes de entrar na UTI.


