Seja por curiosidade, incentivo dos amigos ou para imitar o comportamento dos pais, os adolescentes brasileiros estão começando a beber cada vez mais cedo. Na virada de ano muitos abusam do álcool. Tudo para aproveitar mais a festa.

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que mais de 70% dos jovens entre 13 e 15 anos já ingeriram bebida alcoólica e, deste número, 22% ficaram embriagados pelo menos uma vez. O índice é ainda maior na capital paranaense, onde a marca chega a 80,7% - aproximadamente 10% a mais que a média nacional.

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou um projeto de lei que pretende diminuir o consumo de álcool entre crianças e adolescentes. O texto prevê detenção de seis meses a quatro anos para comerciantes condenados por venda de bebida alcoólica a menores de 18 anos. ''É uma boa medida, mas tem que haver uma fiscalização rigorosa tanto da polícia quanto do Ministério Público'', ressalta o hebiatra (especialista em adolescentes) Walter Marcondes Filho, que, em entrevista à FOLHA, discute o papel da família e das instituições de ensino na prevenção do consumo do álcool.

Quais os principais malefícios do consumo de bebiba alcoólica por crianças e adolescentes?
A alteração do comportamento é destrutiva tanto na criança quanto no jovem e no adulto. O uso contínuo do álcool pode transformar o indivíduo em alcoolista crônico, trazendo uma série de problemas físicos a ele. Podem acontecer desvios de conduta, queda do rendimento escolar e é possível desencadear um surto de psicose. Além disso, muitos jovens provocam acidentes de trânsito que resultam morte. A bebida tira a censura da pessoa e sem censura somos capazes de fazer qualquer coisa.

As mulheres também estão bebendo precocemente. E elas bebem tanto ou mais que os homens. Isso é feio. Elas estão ficando mais gordas. Não é ser moralista, mas elas estão fazendo um papelão porque ficam embriagadas, vomitam. Muitas não bebem socialmente.

Qual o papel da família na prevenção do consumo da bebida? E qual é a importância do exemplo dos pais?
A educação se faz através do exemplo. O jovem e a criança copiam o que os pais fazem e não o que eles falam. Beber dentro de casa é um mau exemplo para o filho, pois ele pode copiar esse comportamento. Não adianta aconselhar o filho a não beber nas festas se o pai faz churrasco em casa e toma muita cerveja.

Não são só os pais que dão péssimos exemplos. No Hospital Universitário, por exemplo, há cartazes de cervejadas. Depois criticam os jovens que bebem e saem no corredor falando alto ou gritando. Mas por que as universidades permitem propaganda de bebedeira em suas dependências? É um péssimo exemplo. Essas instituições formam cidadãos. Além disso, é uma hipocrisia fazer propaganda de bebida na mídia. Isso alimenta o imaginário do jovem.

Então a propaganda de bebidas deveria ser restrita ou proibida, uma vez que pode estimular o consumo?
O governo é cúmplice. O IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) da bebida alcoólica e do tabaco é altíssimo. O governo não quer se desfazer disso e não proíbe a propaganda. O governo é omisso e tem culpa nisso. Se o governo fosse menos hipócrita iria retirar da mídia essas propagandas.

Deixar uma criança pequena experimentar a bebida de vez em quando é prejudicial? Pode estimular o consumo no futuro?
Pode estimular. Quando os pais permitem que os filhos pequenos experimentem uma bebida alcoólica a criança entende que aquela atitude é consentida. O certo é não beber na frente do filho. Mas se acontecer de a criança pedir para experimentar a bebida os pais devem explicar: ''Eu sou adulto, você é criança.''

Existe uma série de coisas em que os pais são extremamente democráticos. É preciso impor limites quando o filho é pequeno. As pessoas criticam os jovens por não ter limites, mas eles não têm porque os adultos não impuseram. A culpa não é do jovem e sim dos pais, das escolas e das universidades que permitem as bebedeiras e as festas. As universidades estão rodeadas de bares. Como mudar uma sociedade com tanta permissividade?

Qual é o grau de influência do fator genético no consumo de bebida alcoólica? Filhos ou netos de alcoólatras têm maior probabilidade de desenvolver a doença?
Sim. Se a pessoa tem avós ou pais alcoólatras, além do fator genético, existe um incentivo familiar, pois os filhos copiam o comportamento dos adultos. Quem tem familiares alcoólatras tem uma tendência maior de desenvolver a doença. Mas isso não é uma regra. Às vezes a pessoa tem pai alcoólatra e abomina a bebida porque viu a destruição que o problema provocou na família.

A CCJ do Senado aprovou texto que prevê detenção por venda de bebida alcoólica a menores. O senhor acha que a medida vai realmente restringir a ingestão de bebidas nessa faixa etária?
Nos Estados Unidos a bebida não é vendida de jeito nenhum para jovens. Até os adultos devem comprar e colocar em saquinho para não circular com a garrafa ou latinha (à mostra). Já aqui, se você passar na Avenida Higienópolis nos finais de semana, é possível ver jovens bebendo na rua e nos postos de gasolina. Não é função dos postos fazer esse tipo de comércio. Por que o Ministério Público (MP) não faz nada? A detenção é uma boa medida, pois vai deixar as pessoas mais amedrontadas. Mas tem que haver uma fiscalização rigorosa tanto da polícia quanto do MP.

Uma opção para restringir o consumo não seria punir as pessoas que fornecem bebida ao menor e não apenas as que vendem?
Com certeza. É preciso deter quem vende e quem fornece. É preciso implantar medidas para evitar o consumo de bebidas como a Lei Seca. A partir de determinada hora o consumo de bebida alcoólica deveria ser proibido nos estabelecimentos.

Afixar nos rótulos e estabelecimentos advertências como''Evite o consumo excessivo de álcool'' pode ser eficiente no sentido de evitar o consumo entre os menores?
O próprio governo que faz essas advertências também faz as propagandas para incentivar o consumo. A incoerência parte de cima. O jovem aprende porque ele é espremido por propagandas e erros cometidos pelos governos, escolas, universidades e famílias.

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